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Menos internet: mulheres contam como mudaram sua relação com redes sociais

Pesquisa feita pelos sociólogos Hui-Tzu Grace Chou e Nicholas Edge, da Universidade Utah Valley, constatou que quanto mais horas uma pessoa passa no Facebook, maior a chance de achar que a vida dos outros é melhor que a sua. - iStock Images
Pesquisa feita pelos sociólogos Hui-Tzu Grace Chou e Nicholas Edge, da Universidade Utah Valley, constatou que quanto mais horas uma pessoa passa no Facebook, maior a chance de achar que a vida dos outros é melhor que a sua. Imagem: iStock Images

Geiza Martins

Colaboração para Universa

16/12/2018 04h00

Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp nunca foram tão importantes. Muito além de compartilhar nossos momentos positivos, as redes sociais viraram espaço para trabalho, debate, posicionamento e até voyerismo da vida alheia. Mas dependendo da maneira como usamos as redes, a nossa versão virtual pode oprimir e deprimir a real.

E há dados para comprovar: uma pesquisa feita pelos sociólogos Hui-Tzu Grace Chou e Nicholas Edge, da Universidade Utah Valley, constatou que quanto mais horas uma pessoa passa no Facebook, maior a chance de achar que a vida dos outros é melhor que a sua. Isso sem contar que Facebook, Twitter, Instagram nos fazem sentir conectados com as pessoas, mas em uma rápida análise descobrimos que apenas assistimos passivamente a vida do outro.

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Alguns usuários se deram conta dos malefícios das redes e mudaram sua relação com as redes sociais. Umas abandonaram o Facebook, outras pararam de seguir musas fitness e teve gente que trocou as horas nas redes por leitura. Confira as histórias de quatro mulheres:

"Parei de seguir influenciadoras que me oprimiam"

"Eu sempre fui meio problemática com meu corpo. Já fui gordinha, magrinha, de tudo! Quando era mais nova, sempre me zoavam com isso, ou por ser magra ou gorda demais. Isso tudo acabou contribuindo muito para minha insegurança. Eu uso bastante Instagram e adoro passar horas vendo Stories. Então, me incomodava muito umas influenciadoras que eu seguia e tentavam me enfiar goela abaixo que ser magro mais é bonito e ponto. Ou mesmo ensinar dietas malucas e receitas horrorosas para que a gente emagreça. Quando começaram a surgir meninas que me representavam e alguns movimentos [como o body positive], percebi o quão errado e delicado é falar sobre magreza e saúde no Instagram. Dei unfollow em várias influenciadoras. Também entrei em alguns grupos no Facebook onde rolavam essas discussões e vi que tinham meninas que eram muito mais afetadas que eu com essas publicações. Deixar de seguir essas mulheres me mudou. Tirei o peso de culpa quando via aquele estilo de vida que eu não me vejo levando. Outra coisa é não me sentir mal quando elas ficavam postando stories de 256 exercícios na academia enquanto eu não tinha tempo para fazer isso. Para ser bem sincera, também não tinha vontade [risos]."

Amanda Gonzalez, 22 anos, jornalista

"Sair da rede social foi uma libertação da alma"

"Entrei no Facebook no final de 2010, mais ou menos. Anos depois, quando começou aquela opção de revisitar publicações antigas, percebi que já não era mais aquela pessoa do começo. Estava fazendo terapia e passei por um processo de amadurecimento muito profundo. Mudei algumas ideias e a maneira de agir com um bocado de coisas. Isso me gerou um alerta. Foi aí que passei a limpar meu perfil, apagando fotos de álbum, publicações, etc. Além disso, 2014 foi um ano muito rachado politicamente e isso incomodou. Eu via um post, um comentário, ia no perfil da pessoa que comentou e quando percebi, estava me perdendo na rede! Passava umas três horas na frente da tela e aquilo me deixava deprê. Também descobri que a rede era mais um vínculo tecnológico do que amizade. Eu não tinha nenhuma relação pessoal com 90% das pessoas que estavam lá. Foi aí que fiquei seletiva, passei a deixar grupos etc. Mas, apesar dessa limpa, ainda estava perdendo muito tempo no Facebook.

Então comecei a pesar o que me faria falta se saísse. Considerei que algumas pessoas não iam me achar mais. Mas daí pensei, será que quero que elas me achem? Questionei esses 1 mil parabéns que recebia por lá, de pessoas que não viriam no meu aniversário. Então, eu me propus a sair do Facebook. Dali em diante, toda vez que pensava no Facebook, eu ia escrever meu roteiro, um projeto pessoal que tinha. E não é que consegui terminar? Já faz mais de um ano que saí e percebi que estou livre de um aprisionamento da alma, que acho que o Facebook se tornou. Troquei os posts por leitura e, no momento, estou lendo quatro livros ao mesmo tempo! Agora, faço uma campanha de 'largue as redes e vá ver um amigo que você não vê há muito tempo'. Sair do Facebook foi uma libertação da alma."

Lívia Cappellari, 37 anos, roteirista

"As redes não podem se sobrepor à vida real"

"No geral, uso as redes sociais com uma curadoria de visões do mundo, basicamente. Só sigo aquela pessoa que me interessa. E neste ano já saí duas vezes do Facebook. Entre a primeira e a segunda vez, fiquei até 2 meses longe. Essas não foram as primeiras vezes que larguei o Face. Na verdade, geralmente, eu saio quando a vida virtual se sobrepõe demais à real. Essa sensação de que você fica ali conectado o tempo inteiro, vendo o que as pessoas estão fazendo e você não tem contato real com elas. Há momentos meus de sensibilidade em que isso me atropela e angustia. Também tem uma sensação de que você fica passivo recebendo informações e ponto de vista das pessoas sem precisar fazer nenhum esforço para alcançar o outro. Eu me sentia alimentada por saber o que elas estavam pensando e vivendo. Toda vez que saio, sinto uma sensação de isolamento e me sinto mais compelida em procurar as pessoas para saber o que elas estão sentindo e o que está acontecendo na vida delas. É uma movimentação real. Acho que nossos afetos não devem estar só na esfera virtual. E também por essa sensação opressora de que vivemos numa retroalimentação dos nossos próprios pensamentos, é uma bolha. A internet amplia isso. E não quero mais me tapear muito. Passei a tentar encontrar as pessoas pessoalmente ou ao menos enviar uma mensagem direta pelo WhatsApp e conversar. Aliás, no Whats, já saí do grupo da família por ter um parente escrotão, machistão, bronco. O cara era desagradável mesmo e eu sentia que não precisava absorver aquilo."

Cassandra Mello, 38 anos, videomaker

"Essa exposição irreal é uma necessidade de autopromoção"

"Eu entrei no Facebook mas fiquei por muito pouco tempo. Estou fora há tempos já. Na verdade, não me identifiquei com a maneira de usá-lo. Sempre fui uma pessoa mais discreta em relação a minha vida pessoal, sabe? Eu acho que a forma como as pessoas normalmente utilizam o Facebook não serve para mim. Entendo que essa exposição é irreal, de uma felicidade que na verdade representa uma necessidade de autopromoção. Por isso, não quis ficar lá, não queria sentir isso. Em algumas ocasiões, acontece de sentir falta. Por exemplo, percebi que eu gostaria de ter tido um perfil nas manifestações dos estudantes pelo Passe Livre, quando as mensagens eram passadas quase que exclusivamente pelo Facebook. Nessa época me senti excluída da sociedade pois não tive acesso a nenhuma organização de ato. Não participei de nenhuma por não saber onde ocorreriam. Mas isso também dá para remediar, pois tenho amigas que me avisam sobre os eventos bacanas e me atualizam sobre as baladas. E, claro, há pessoas que usam a rede de forma diferente. Meu marido, por exemplo, tem contato com antigos professores e outras pessoas que trazem informações de qualidade. Ah, também preciso dizer que eu tenho um perfil no Instagram, mas isso porque tem a ver com fotos, que é algo que sempre gostei muito. Ali também vejo pessoas usando como autopromoção, mas daí é mais fácil, basta seguir só os usuários legais."

Lu Barreira, 45 anos, bióloga

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