Topo

Universa


Universa

"Homens se incomodavam com minha saia", diz gamer que foi capa da Playboy

A apresentadora de eSports Nyvi Estephan durante o Prêmio eSports Brasil, em 2017 - Flavio Florido/BP Filmes
A apresentadora de eSports Nyvi Estephan durante o Prêmio eSports Brasil, em 2017 Imagem: Flavio Florido/BP Filmes

Jacqueline Elise

Da Universa

14/12/2018 04h00

O mercado de games tem crescido de forma estrondosa no Brasil: atualmente ocupa a terceira posição no ranking mundial de jogadores, com mais de 60 milhões de usuários; e estima-se que o meio movimentará cerca de US$1,5 bilhão em 2018. Junto com o mercado, uma jovem de 27 anos conquistou este público: a apresentadora de campeonatos e gamer Nyvi Estephan.

Pegou gosto pela coisa ainda na infância, quando o irmão ganhou um console de videogame. Viciou-se em jogar "Donkey Kong 2" e encontrou no YouTube uma forma de expor sua paixão. Ela, que é formada em Design de Moda, deixou este universo de lado, em 2014, para viver do seu hobby: jogar e apresentar partidas on-line.

Ficou mais conhecida ainda quando posou para a revista "Playboy", em 2016 --"A primeira capa deles que 'veio da internet'", segundo ela-- e sua fama neste universo só cresce. Hoje, Nyvi apresenta campeonatos nacionais e internacionais dos jogos mais importantes, nas horas vagas gosta de transmitir suas partidas no computador do game "World of Warcraft" e, no próximo dia 19, será novamente a "hostess" do Prêmio eSpots Brasil, que homenageia os melhores jogadores de 2018 do mercado brasileiro. 

Em entrevista à Universa, Nyvi fala sobre os perrengues que enfrentou para ser respeitada no começo da carreira, os obstáculos que as mulheres gamers encontram quando jogam com homens e como inspirou outras garotas a entrar nesse universo.

O que te deixa mais realizada trabalhando com games, especialmente em comparação com os outros empregos que teve?

Jogar e apresentar as competições era como um hobby para mim. Acredito que quando a gente trabalha com nossos hobbies, com o que nos diverte, a gente não trabalha.

Este universo de campeonatos de videogames ainda é novidade para muita gente. Como as mulheres fazem esse negócio girar?

O negócio é muito grande, tem pessoas que ganham a vida como jogadores, narradores, coaches [técnicos de equipe]. E tem muitas mulheres presentes nessas produções, como narradoras, jogadoras profissionais, streamers [pessoas que fazem transmissão ao vivo de suas partidas].

E apesar de ter um aumento no número de mulheres que consomem games, ainda é difícil vê-las em times profissionais, apresentando mais eventos ou até mesmo sendo premiadas.

Quando a gente fala só de jogos competitivos, o percentual de mulheres ainda é menor porque elas jogam mais no celular --não é porque jogam pior do que os homens. Antes, as meninas não ganhavam videogames de presente dos pais, era o irmão delas que ganhava. Eu comecei assim. Mas, hoje em dia, tem sido cada vez mais difundido, você vê que elas estão se interessando mais.

Você percebe que mulheres ainda evitam revelar seu gênero quando jogam on-line, para evitar constrangimentos?

Infelizmente é normal entrar numa partida on-line e, se você mostrar que é mulher, os caras tentam conversar no chat privado, pedem telefone, fotos. E se seu time perder a partida, eles falam que a culpa é toda sua, te mandam 'lavar a louça'. Também te pedem para provar seu 'curriculo gamer': mostrar quantos e quais jogos você gosta, quantas horas de jogo você tem, para provar que sabe do que está falando. A parte positiva é que, hoje em dia, tem os streams, então você monta o seu 'currículo' lá e todo mundo vê que não está mentindo.

Você é uma pessoa que chama muita atenção pela sua imagem. Isso interfere na forma como veem você no meio?

Os homens se incomodavam com o tamanho da minha saia, com meu decote --minha roupa e minha aparência não significam que eu não entendo de games. Tive que me provar, mostrar o quanto eu estudei cada game, o quanto eu sabia jogar, porque as pessoas me olhavam e achavam que eu só estava querendo aparecer, mas eu já fazia parte daquela comunidade antes.

Nyvi Estephan estampou a capa e fez um ensaio sensual para a "Playboy" em 2016 - Reprodução/Playboy
Nyvi Estephan estampou a capa e fez um ensaio sensual para a "Playboy" em 2016
Imagem: Reprodução/Playboy

Em 2016, quando você posou para a "Playboy", gerou um burburinho muito grande. Como a experiência mudou sua carreira?

Na época em que eu posei para a "Playboy", eu conversei antes com várias empresas para saber se o ensaio afetaria minha imagem. No fim, se você olhar as propagandas da revista, essas mesmas empresas estavam lá, anunciando. Existe um estereótipo de que poderia ser algo ruim, mas para mim foi bem tranquilo. Eu fui a primeira capa deles que 'veio da internet'. Teve um certo choque, mas foi uma coisa boa, e as pessoas entenderam que 'olha lá, ela surgiu nesse mundo nerd e conseguiu este ensaio'.

Como as mulheres veem você neste mundo dos jogos? Que tipo de comentário ou retorno costuma receber delas?

Eu tenho um feedback muito positivo das meninas. Com toda a dificuldade que eu tive para provar que meu trabalho era sério no início da carreira, elas dizem que eu fui uma inspiração, que é muito bom ver uma mulher apresentando os campeonatos, que me ver lá as inspirou a jogar. Quando eu virei apresentadora, não tinham muitas mulheres nessa posição. Hoje, vejo muito mais garotas entrando nesse mundo.

Mais Universa