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Feminista de 12 anos cria projeto para combater violência contra a mulher

Teresa tem 12 anos e luta pelo fim do machismo - Arquivo Pessoal
Teresa tem 12 anos e luta pelo fim do machismo Imagem: Arquivo Pessoal

Talyta Vespa

Da Universa

11/09/2018 04h00

Aos 12 anos e cheia de ideias, a estudante paulistana Teresa Batlickova gosta de ler, de teatro e de tocar ukulelê. Mas ser uma criança não a blinda dos problemas da sociedade. “Já sofri machismo. Nada tão sério como estupro ou assédio, mas já ouvi de um garoto que eu deveria aprender a lavar louça porque sou mulher”, conta a menina à Universa. "Além disso, sempre que vou jogar futebol com os meninos, eles dizem que sou café com leite". 

Em um projeto da escola particular onde estuda, em São Paulo, as crianças deveriam encontrar um problema social e criar uma proposta para combatê-lo, Teresa compartilhou sua indignação com outras quatro colegas, também de 12 anos. O grupo decidiu falar sobre violência contra a mulher e, ao pesquisar, encontrou dados que, segundo a menina, precisavam ser divulgados. “Ao nos reunirmos, descobrimos que, a cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas, e que são os parceiros ou ex-parceiros os responsáveis em mais de 80% dos casos reportados”, afirma.

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“Percebemos que os dados mais alarmantes eram os de violência contra a mulher, os de assédio e os de estupro. Por isso, criamos panfletos informativos sobre esses casos e distribuímos na estação Butantã do metrô”, explica Teresa. No Brasil, em 2017, 164 casos de estupro foram registrados por dia.

teresa - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Teresa distribuiu panfletos informativos sobre violência contra a mulher na estação Butantã do metrô
Imagem: Arquivo Pessoal

Além de distribuir os panfletos, Teresa e uma das colegas explicaram aos inúmeros adultos que por ali passaram a importância de denunciar casos de assédio e abuso. “Falamos principalmente com mulheres porque queremos estimulá-las a denunciar. E explicamos aos homens como eles podem ajudar caso presenciem algum caso de violência".

Em defesa da mulher desde cedo

Teresa quer ser advogada quando crescer. Em casa, já discute com os pais sobre as injustiças do mundo. A mãe, Eva Batlickova, tradutora e doutoranda em letras, de 42 anos, garante que a filha é comunicativa e participativa nas decisões de casa desde pequena. “As injustiças do mundo a indignam”, conta, orgulhosa.

A garota se diz feminista. “As pessoas acham que feminismo é uma ideia que coloca as mulheres acima dos homens, mas não é isso. Significa igualdade, luta contra o machismo – que é a superioridade dos homens em relação a nós. Entendi isso com 10 anos, na escola, onde explicaram todos esses conceitos”.

Eva se alegra ao saber que a escola da filha fala sobre igualdade de gênero. "As escolas deveriam ser muito mais que uma mera fonte de conteúdo para o vestibular. Deveriam criar futuros cidadãos, responsáveis por suas decisões", diz.

Em casa, o feminismo é realidade. As tarefas domésticas são divididas entre ela, a mãe e o pai. Filha única, Teresa lava a louça não porque é mulher, mas porque aprendeu desde cedo a ajudar. “Ela até cozinha às vezes”, conta a mãe, que estimula a menina a entender problemas sociais. “Acredito que toda criança já nasce com a própria personalidade, então, nós apenas apoiamos a tendência que ela já tinha de se interessar pelo mundo. Conversamos bastante sobre coisas que nos preocupam, também em relação à segurança dela, e ela costuma participar desses papos”, explica.

Além da panfletagem, Teresa e as colegas criaram uma página no Instagram (@femininaconsciencia) em que publicam informações sobre como pedir ajuda em casos de assédio e como denunciar qualquer tipo de violência. “Criamos a página para atingir um público maior, falar de situações como o machismo silencioso, por exemplo. Não dava para escrever tudo em panfletos, senão ficaria muita coisa. A gente também avisa quais são os lugares com maiores índices de estupro para as mulheres ficarem ligadas”, conta.

O projeto deixou o âmbito escolar e se tornou uma meta para Teresa e as amigas: “Mesmo com o fim do trabalho, continuaremos abastecendo o Instagram e programamos novas panfletagens nos metrôs. A conscientização é a melhor forma de mudar uma realidade”, ela diz