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Direitos da mulher

Metade das domésticas não sabe a senha do Wi-Fi das casas onde trabalham

A pesquisadora Natália Neris - Arquivo Pessoal
A pesquisadora Natália Neris Imagem: Arquivo Pessoal

Brenda Fucuta

Da Universa

24/08/2018 04h00

Desconfiança por parte dos patrões ou autocensura, medo de pedir. Estas são as principais razões apontadas pelas empregadas domésticas para não ter acesso à senha do Wi-Fi do local de trabalho. Das 400 mulheres entrevistadas em uma pesquisa sobre acesso à internet e hábitos de navegação de empregadas domésticas da Grande São Paulo, quase metade consome seu próprio pacote de dados enquanto está trabalhando.

Realizada pelo InternetLab, think tank independente que investiga temas relacionados à tecnologia e ao direito, a pesquisa também aponta que, apesar de 53% das mensalistas e 38% das diaristas terem adicionado os empregadores nas redes sociais, 58% consideram não ser bom misturar trabalho com vida pessoal. Além de responderem às perguntas da pesquisa, muitas profissionais participaram da análise dos resultados. “A interpretação delas ajudou a contextualizar os dados que colhemos”, explica a pesquisadora Natália Neris, coordenadora da área de desigualdade e identidade do InternetLab e uma das quatros responsáveis pelo levantamento ­– as outras são as advogadas Mariana Valente, diretora do think tank, e Marisa Vili e Harika Maia, pesquisadoras da Rede de Conhecimento Social.

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A seguir, Natália comenta os principais resultados do estudo.

O que surpreendeu vocês nesta pesquisa?

A preocupação com a privacidade nos surpreendeu, porque o senso comum é que o brasileiro não liga muito para isso. Mas as entrevistadas relataram um cuidado grande com o tipo de informação que elas publicam nas redes sociais, motivadas principalmente pelo medo com a segurança pessoal. “Não vou postar minhas viagens porque estou dizendo na internet que minha casa está vazia e pode ser roubada”, disse uma delas. Outra coisa interessante foi o fato de muitas, especialmente as diaristas, não gostarem da ideia de adicionar os patrões nas redes sociais. Elas não queriam correr o risco de ouvir comentários, depois, sobre sua vida particular. Também ficamos surpresas com o pouco uso que elas fazem das redes para divulgar seu trabalho e atrair novos clientes. Muitas diaristas disseram que clientes arrumados na internet muitas vezes não pagam pelo trabalho. Também apareceu com força a percepção da internet como um espaco de boatos e de notícias falsas. Elas tendem a desconfiar das  informações que circulam na internet e citam a mídia tradicional, como os jornais e programas de TV, como fontes mais seguras.

Vocês escolheram mulheres que já eram internautas para compor a mostra da pesquisa. Mas todas elas possuíam smartphone e a maioria absoluta os usava para acesso à rede. Elas podem ser consideradas heavy users?
A popularização do smartphone nos últimos anos parece explicar este resultado. Além disso, nesse grupo, percebemos que o celular é uma ferramenta muito acionada para a localização do local de trabalho e do transporte, para a comunicação com a família e com os empregadores, além de servir como fonte de entretenimento. Enquanto se deslocam entre casa e trabalho, as nossas entrevistadas usam os serviços de mensagem instantânea, navegam nas redes sociais e ouvem muita música, por exemplo. Mas isso não significa que o celular forneça a melhor experiência no uso da internet. Pelo contrário, a navegação que ele oferece é bem limitada. Se você soma isso ao fato de que 64% delas fazem uso de celulares pré-pagos e não possuem, em sua maioria, mais do que 1 a 4 giga de no pacote de dados para consumir no mês, então, dá para concluir que muitos dos recursos disponíveis na rede não existem para este grupo.

Por que vocês decidiram investigar este assunto?
A gente tem a missão de subsidiar o debate público com informações sobre privacidade, desigualdade, liberdade de expressão e política. Tudo isso, no âmbito do direito e da tecnologia, por isso nossa equipe é quase toda formada por pesquisadores com formação jurídica. No caso desta pesquisa, tínhamos percebido uma escassez de informação sobre desigualdades de acesso e uso de internet, apesar de já termos dados regulares sobre o uso da internet no Brasil, principalmente os dos relatórios anuais do Comitê Gestor da Internet. Imaginamos que uma pesquisa com as empregadas domésticas poderia revelar elementos de desigualdade social, de gênero e de raça. Mais de 90% dos empregados domésticos no Brasil são mulheres, quase 70% são pardos ou negros e, em termos de classe social, eles estão na base da pirâmide.

Elas consomem pouco dado e 30% não têm internet em casa. Mesmo assim, nem metade delas usa o Wi-Fi do local de trabalho. Por quê?
Oitenta por cento usam a internet no local de trabalho. Mas apenas 51% ganharam acesso à senha da rede do patrão. Ou a senha não foi oferecida ou não foi pedida. Uma diarista chegou a dizer que temia que seus patrões pensassem que, ao usar a internet, ela pudesse enviar informações sobre a rotina da casa a alguém de fora. Ou que eles achassem que ela deixasse o trabalho de lado para ficar ao celular. Por outro lado, algumas relataram que a patroa colocava crédito no pré-pago para que elas pudessem manter contato fora da hora de trabalho. Como em vários outros aspectos da relação brasileira entre patrão e empregado doméstico, aqui também há muita ambiguidade.

A pequisa revela que as empregadas acionam bastante o Dr. Google.

Além da busca por receitas de cozinha, muito do conteúdo informativo que elas acessam tem a ver com saúde e beleza. Na nossa análise e em conjunto com interpretações das trabalhadoras, isso demonstra que o sistema de saúde não funciona tão bem quanto deveria em classes mais baixas. Elas reclamaram do descaso com que muitos médicos fazem diagnóstico, relataram sair de muitas consultas com a certeza de que não foram ouvidas. Ou de que o tratamento não era correto. Então, o acesso a informações que possam complementar ou confirmar a indicação que receberam em consultório foi vista, por nós, como uma forma de autonomia  um questionamento do saber médico impositivo, de verdades absolutas. Para elas, o Dr. Google se transformou em uma espécie de segunda opinião.

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