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Escrever sobre si mesmo acalma e estimula a memória

Ao escrever nossa história identificamos o que está no caminho de uma saúde melhor - Chris Gash/The New York Times
Ao escrever nossa história identificamos o que está no caminho de uma saúde melhor Imagem: Chris Gash/The New York Times

Tara Parker Pope

The New York Times

22/01/2015 13h56

A pesquisa científica sobre os benefícios da escrita expressiva é surpreendentemente vasta. Estudos mostraram que escrever sobre si mesmo e sobre experiências pessoais pode acalmar transtornos de humor, ajudar a diminuir os sintomas em pacientes com câncer, melhorar a saúde depois de um ataque do coração, diminuir as visitas ao médico e até estimular a memória.

Agora, os pesquisadores estão estudando se o poder de escrever –e reescrever– sua história pessoal pode levar a mudanças de comportamento e aumentar a felicidade.
 
O conceito é baseado na ideia de que todos temos uma narrativa pessoal que modela nossa visão de mundo e de nós mesmos. Mas, algumas vezes, nossa voz interior não compreende isso muito bem. Alguns pesquisadores acreditam que, ao escrever e depois editar nossas próprias histórias, podemos mudar nossas percepções de nós mesmos e identificar obstáculos que impedem uma saúde melhor.
 
Pode soar como nonsense de autoajuda, mas pesquisas sugerem que os efeitos são reais.
 
Em um dos primeiros estudos sobre edição da história pessoal, os pesquisadores reuniram um grupo de 40 calouros da Universidade Duke com dificuldades acadêmicas. Eles não apenas estavam preocupados com as notas, mas se perguntavam se eram intelectualmente iguais aos outros alunos da escola.
 
Os alunos foram divididos entre grupos de intervenção e de controle. Os estudantes no grupo de intervenção receberam informações mostrando que era normal ter dificuldades em seu primeiro ano de faculdade. Eles assistiram a vídeos em que alunos de anos mais avançados contavam como suas próprias notas melhoraram depois que se acostumaram com a escola.
 
O objetivo era incentivar os alunos a editarem suas próprias narrativas sobre a faculdade. Ao invés de pensar que não haviam sido feitos para a universidade, foram encorajados a pensar que precisavam apenas de mais tempo para se ajustar.
 
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Os resultados dessa intervenção, publicados no Journal of Personality and Social Psychology, foram impressionantes. No curto prazo, os alunos que passaram pela intervenção de mudança de história tiveram notas melhores em um teste de amostra. Mas os resultados de longo prazo foram ainda mais expressivos.
 
Os estudantes incentivados a mudar suas narrativas pessoais melhoraram suas notas médias e estiveram menos propensos a abandonar a escola no ano seguinte do que os que não receberam nenhuma informação. No grupo de controle, que não recebeu conselhos sobre as notas, 20% dos alunos deixaram a escola em um ano. Mas no de intervenção apenas um aluno –ou só 5%– largou a faculdade.
 
Em outro estudo, pesquisadores de Stanford focaram em afro-americanos com dificuldades para se adaptar à faculdade. Foi pedido que alguns deles criassem um texto ou fizessem um vídeo sobre a vida escolar para ser mostrado a futuros estudantes. A pesquisa descobriu que aqueles que fizeram o texto ou o vídeo receberam notas melhores nos meses seguintes do que os de um grupo de controle.
 
Outro estudo sobre escrita pediu a casais para escrever sobre um conflito como observadores neutros. Entre 120 casais, aqueles que exploraram seus próprios problemas pelo meio da escrita mostraram um maior aumento na felicidade conjugal do que os que não escreveram sobre seus questionamentos.
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"Essas intervenções escritas podem realmente incentivar as pessoas que tem um modo de pensar defensivo a adotar um ciclo mais otimista", afirma Timothy D. Wilson, professor de Psicologia da Universidade da Virgínia e principal autor do estudo da Duke.
 
Wilson, autor do livro "Redirect: Changing the Stories We Live By" ("Redirecione: mudando as histórias que vivemos", em tradução livre), lançado este mês nos Estados Unidos, acredita que apesar do fato de escrever não resolver todos os problemas, pode definitivamente ajudar as pessoas a lidar melhor com a vida.
 
"Escrever força as pessoas a reconstruir o que as está preocupando e encontrar novos sentidos nisso", avisa ele.
 
Grande parte do trabalho de escrita expressiva foi chefiado por James Pennebaker, professor de Psicologia da Universidade do Texas. Em uma de suas experiências, ele pediu a universitários que escrevessem por 15 minutos diários sobre um tema pessoal importante ou a respeito de um tópico superficial. Depois de um tempo, os alunos que escreveram sobre suas questões pessoais tiveram menos doenças e foram menos ao centro de saúde dos estudantes.
 
"A ideia é incentivar as pessoas a chegarem a um acordo sobre quem elas são e onde querem ir. Penso em escrita expressiva como uma correção de curso de vida", diz Pennebaker.
 
No Johnson & Johnson Human Performance Institute (Instituto Johnson & Johnson de Performance Humana), foi pedido a clientes que identificassem seus objetivos e depois escrevessem sobre a razão de ainda não terem atingido essas metas.
 
Assim que o cliente escreve suas velhas histórias, pede-se que reflita sobre ela e edite a narrativa para chegar a uma avaliação nova e mais honesta. O instituto ainda não possui dados de longo prazo, mas a intervenção já produziu fortes resultados circunstanciais.
 
Em um exemplo, uma mulher chamada Siri escreveu inicialmente em sua "velha história" que queria melhorar fisicamente, mas, como era arrimo de família, precisava trabalhar muitas horas e já se sentia culpada por causa do tempo que passava longe de seus filhos.
 
Quando incentivada, ela finalmente reescreveu sua história, baseada nos mesmos fatos, mas com uma avaliação mais honesta sobre os motivos pelos quais não fazia exercícios.
 
"A verdade é que não gosto de fazer ginástica e não dou valor suficiente para a minha saúde. Eu uso meu trabalho e meus filhos como desculpa para minha falta de atividade física", afirmou.
 
Intrigada pela evidência que respalda a escrita expressiva, decidi tentar por mim mesma, com a ajuda de Jack Groppel, cofundador do Human Performance Institute.
 
Como Siri, tenho várias explicações para por que não encontro tempo para me exercitar. Mas assim que comecei a escrever meus pensamentos passei a descobrir que, se mudar minhas prioridades, terei tempo para a ginástica.
 
"Quando você chega a esse confronto com a verdade do que é importante para você, isso cria uma maior oportunidade para mudança", avisa Groppel.

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