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Amor platônico traz sofrimento; saiba como sair da fantasia

Comuns na adolescência, as paixões platônicas devem despertar atenção na fase adulta - Thinkstock
Comuns na adolescência, as paixões platônicas devem despertar atenção na fase adulta Imagem: Thinkstock

Simone Cunha

Do UOL, em São Paulo

04/01/2013 07h30

A advogada paulistana Mônica Maia, 48, alimentou uma paixão durante 13 anos por um rapaz que conheceu durante uma viagem de férias. Quando o sentimento surgiu, ela tinha apenas 15 anos. “Durante o curto intervalo de tempo em que convivemos nada foi dito ou consumado. Mas mantivemos contato por meio de cartas carregadas de romantismo, o suficiente para me fazer mergulhar de cabeça na fantasia”, diz.

Onde surgiu a expressão?

Do ponto de vista filosófico, o amor platônico não implica em sofrimento e resignação. O termo "platônico" deriva de "O Banquete", escrito por Platão no século IV a.C., obra em que o filósofo discorre sobre as diferentes maneiras de entender e praticar o amor.

 

Para José Cavalcante de Souza, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP) e autor da tradução brasileira de "O Banquete" (Coleção Os Pensadores), amor platônico é apenas um amor intelectual, e nada ter a ver com um sentimento não correspondido.

 

Segundo ele, provavelmente faltou compreensão na hora de interpretar a obra filosófica e a ideia original foi deteriorada. Para ele, amor platônico é apenas um amor que “quase todo mundo deve sentir em algum momento de sua vida”.

Depois disso, ele foi morar fora do país e só deu notícias após dois anos, quando enviou uma carta a Mônica. Quando o rapaz voltou ao Brasil, a advogada decidiu encarar a situação. “Cansei daquela indefinição, daquele jogo de sedução doentio de ambas as partes, porque não conseguíamos nos desvencilhar desse vício que se arrastava por tantos anos”, diz ela. A esperada primeira vez do casal não foi tão parecida com aquelas de novela. “Foi apenas um protocolo que devia ser cumprido para fechar um ciclo. Sem a ilusão, enxerguei que meu príncipe era um sapo. Aquela beleza que me hipnotizava escondia uma pessoa vazia, sem encantos”, afirma. 

Os amores platônicos são comuns na adolescência e fazem parte do processo de formação, segundo o psiquiatra Raphael Boechat, professor na área de psiquiatria da Universidade de Brasília (UnB). Mas o quadro deve despertar atenção se a pessoa chegar à fase adulta cultivando paixões não reais, pois isso pode trazer prejuízos e sofrimento. 

Segundo Boechat, há alguns tipos de pessoas que são mais propensas ao amor platônico. “Pessoas com dificuldade de se relacionar, que vivem mais isoladas, têm excesso de timidez e baixa autoestima, por exemplo, podem sofrer mais de amores secretos”. 

Convicção do amor alheio

O empresário santista Felipe Oliveira, 25, tem a certeza de que uma amiga de faculdade é a mulher da sua vida. Há sete anos, o rapaz é apaixonado pela amiga, que sabe sobre o amor, mas não lhe corresponde. “Estou me guardando [sexualmente] para ela. No fundo, acho que ela gosta de mim e por algum motivo ainda não decidiu me dar uma chance”, afirma. Além de nunca ter dito que Felipe teria chances, a amada mora em outra cidade e pouco fala com o rapaz. “Pode ser que chegue um momento em que resolva dar um basta, mas também pode ser para sempre”, diz.

Para o psicanalista Christian Ingo Lenz Dunker, professor livre docente do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), há platônicos incuráveis, que passam a vida tentando encontrar aquilo que eles têm apenas no plano das ideias. “O amor é estruturalmente constituído por enganos, descobertas, revelações e reconciliações. Ele é uma história, e não apenas um sentimento fixo que temos dentro de nós mesmos”, afirma Dunker.

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Segundo Dunker, existe um quadro patológico denominado erotomania, na qual a pessoa tem a convicção inabalável de que o outro a ama, mas não pode revelar seus verdadeiros sentimentos. “É uma forma de negar o ‘real do desencontro amoroso’”, diz o psicanalista. 

Como sair da fantasia

Para a psicóloga Denise Gimenez Ramos, professora titular na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), não vale a pena perder tanto tempo sem se relacionar direito com alguém. “Cultivar um amor platônico é viver em um mundo de fantasia. A pessoa imagina o que quer. No universo de faz de conta, a pessoa não sofre, mas também não vive. Ou seja, não aproveita a relação a dois”, diz Denise.

De acordo com a psicóloga, a psicoterapia é o melhor caminho para resolver o problema, independente de sua origem. “Sempre é possível uma transformação. O que não pode é se apaixonar pelo irreal”, afirma. A advogada Mônica (aquela que passou 13 anos apaixonada platonicamente por um rapaz) recorreu à terapia para conseguir driblar esse sentimento. “Foi o que me deu coragem para desatar o nó que me prendia ao passado”, diz. 

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