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Sorteio de implante de seios vira febre em discotecas na Argentina

Anúncio da novela colombiana "Sem tetas não há paraíso" - BBC
Anúncio da novela colombiana "Sem tetas não há paraíso"
Imagem: BBC

Rosario Gabino<BR><br/> Da BBC Mundo em Buenos Aires

03/10/2008 11h05

A nova tendência de sortear cirurgias plásticas para os seios em discotecas vem causando alvoroço na Argentina. A prática de sortear um implante de seios para as clientes vem ocorrendo em discotecas das províncias de San Juan, La Rioja, Córdoba e Buenos Aires.

Junto com a entrada - cujo valor oscila entre US$4 e US$10 - as clientes recebem um número para participar do sorteio, caso estejam interessadas. Os proprietários de alguns dos estabelecimentos afirmam que os sorteios são populares entre as mulheres e defendem a estratégia de marketing usada para atrair clientes.

Já profissionais da saúde das regiões argentinas criticaram a iniciativa por prejudicar a relação entre o médico e o paciente e "banalizar" as cirurgias plásticas.

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Na discoteca Sunset - localizada em Olivos, ao norte da capital argentina - o concurso para concorrer à cirurgia chama-se "Quiero mis lolas" (Quero os meus seios, em tradução livre) e já atraiu diversas interessadas.

Fernando Maldonado, promotor do local, disse à BBC que a proposta foi muito bem recebida pelas clientes.

Segundo ele, caso a ganhadora tenha entre 18 e 21 anos, "a autorização dos pais é exigida". Além disso, qualquer vencedora terá que passar por uma análise pré-cirúrgica e outra psicológica, explica.

Maldonado afirma que a vencedora será operada em uma clínica na zona norte de Buenos Aires, mas não deu detalhes sobre o nome do local ou do médico que realizaria a cirurgia.

"Respeitamos as críticas, mas não vejo nada de mal", disse Maldonado. "Trata-se de uma jogada publicitária, mas dará a uma mulher a possibilidade de realizar o sonho de embelezar-se e sentir-se melhor."

Ele explica que parte do sucesso dos concursos se deve ao sucesso da novela colombiana "Sin tetas no hay paraíso" ("Sem tetas não há paraíso", em tradução livre), na qual a protagonista Catalina é obcecada por fazer um implante nos seios.

Marketing x ética

Entidades médicas condenaram a estratégia usada pelas discotecas. Francisco Famá, cirurgião e porta-voz da Sociedade Argentina de Cirurgia Plástica, foi firme ao afirmar que a entidade não acha a prática correta.

"Não se pode sortear intervenções cirúrgicas como se fossem eletrodomésticos", disse. "Consideramos que, do ponto de vista ético, oferecer uma cirurgia como prêmio não é correto porque o paciente não tem a possibilidade de estabelecer uma relação certa com o médico e porque sabemos que quem é médico não irá participar dessa promoção", afirmou Famá.

No entanto, o cirurgião Diego Schavelzon tem uma opinião diferente sobre a iniciativa. Para ele, a questão "não tem nada a ver com ética".

"Esse tipo de sorteio é bom desde que a participação seja voluntária e se respeite a vontade das participantes", disse.

"Além disso, esse tipo de concurso é realizado no mundo todo, não é uma invenção argentina. Os sorteios acontecem em vários torneios de golfe, onde gente com mais dinheiro compete por cirurgias nas pálpebras e liftings", concluiu.

Obsessão

Os implantes de silicone são os mais comuns entre as mulheres argentinas. Basta ir à praia e um olhar mais atento poderá identificar a grande quantidade de mulheres que desfilam com seios artificiais.

Os implantes são mais populares entre as mais jovens. De acordo com o cirurgião Famá, a idade média das mulheres que colocam silicone é de 25 anos.

O relativo baixo custo da cirurgia na Argentina - entre US$ 1 mil e US$ 2 mil dólares - atrai mulheres que vêm ao país para realizar os implantes.

"A Argentina é um dos países onde se realizam mais implantes de seios em todo o mundo. É uma questão cultural, uma moda alimentada pela publicidade e pelos programas de televisão nos quais as mulheres aparecem com pouca roupa", afirmou Famá.

"Parece que o sucesso depende do tamanho dos seios e que eles se converteram em uma necessidade da vida moderna. Na Europa isso não acontece. Na França, você vê as mulheres com seios pequenos e sem problemas", disse.