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A jovem Tabata Amaral, promessa da centro-esquerda no Brasil

Bruno Rocha/Estadão Conteúdo
Imagem: Bruno Rocha/Estadão Conteúdo

23/04/2019 10h01

Nos 25 anos de vida de Tabata Amaral cabem uma infância em um bairro pobre de São Paulo, um pai morto por drogas, medalhas em olimpíadas de matemática, uma brilhante carreira acadêmica em Harvard e, desde o início deste ano, uma cadeira no Congresso Nacional.

Foi na Câmara dos Deputados que ela despontou como figura emergente da centro-esquerda nacional.

"O caminho que eu percorri é muito mais longo do que de muita gente que chegou aqui", afirma a deputada do Partido Democrático Trabalhista (PDT-SP), em entrevista à AFP, em Brasília.

Graduada em Ciências Políticas e Astrofísica e ativista pelo direito a uma educação de qualidade, Amaral ganhou notoriedade na mídia em março passado com a repreensão serena que soou como um golpe de misericórdia no então titular do MEC, Ricardo Vélez.

"Em um trimestre não é possível que o senhor apresente um Power Point com dois, três desejos para cada área da educação. Cadê os projetos? Cadê as metas? Quem são os responsáveis?", questionou-o na Comissão de Educação, antes de pedir sua saída.

Vélez, um filósofo conservador, já estava balançando no cargo há semanas e acabou demitido dias depois pelo presidente Jair Bolsonaro.

Segundo Amaral, suas palavras, viralizadas nas redes sociais, expressaram a "angústia" dos brasileiros diante das "cortinas de fumaça" do atual governo, que "não faz nada prático (...), corta orçamentos e prioriza questões ideológicas".

Como exemplo cita o "inconstitucional" projeto 'Escola Sem Partido' para combater uma "doutrinação ideológica" nas aulas que, segundo ela, Bolsonaro "nunca provou".

"Corpo estranho"

Filha de um cobrador de ônibus e uma empregada doméstica, Amaral cresceu na Vila Missionária, na periferia de São Paulo.

Desde muito cedo viu na educação uma forma de escapar das dramáticas estatísticas de drogas e criminalidade dessa região, que terminaram com a vida de seu pai e de vários amigos e vizinhos.

Destacou-se em Matemática, conseguiu uma bolsa para estudar num colégio particular da capital paulista e ganhou dezenas de medalhas em concursos nacionais e internacionais.

Outra bolsa a levou para a Universidade de Harvard e em 2016, após a formatura, decidiu voltar para São Paulo, onde centrou sua pesquisa e ativismo numa ONG voltada para a área educacional. Acabou interessada pela política e se candidatou nas eleições de outubro.

Em fevereiro estreou num plenário tradicionalmente elitista, de forte tendência conservadora desde a chegada de Bolsonaro ao poder, no qual as mulheres seguem sendo uma minoria (77 de 513 deputados), a média de idade é de 50 anos e as classes populares, os negros, os mestiços e os indígenas têm pouquíssimos representantes.

"A Câmara dos Deputados não está acostumada às mulheres jovens e da periferia, creio que isso é muito evidente, é como se tivesse entrado um corpo estranho e o organismo quer expulsá-lo", afirma a legisladora.

"Nos primeiros dias queriam me proibir constantemente a entrada e me perguntavam se eu era deputada federal de verdade, e não estadual. E no plenário já me interromperam para me perguntar se eu era casada ou solteira, me perguntam se sou dona de uma grande empresa, se minha família é importante. Tudo para saber como alguém como eu veio parar aqui", explica.

"Os dois lados precisam se renovar"

O ex-candidato à presidência pelo PDT Ciro Gomes classificou seu potencial político como "um tesouro"; o presidente da legenda, Carlos Lupi, quer lançá-la em 2020 à prefeitura de São Paulo.

Outros a veem inclusive como possível líder da esquerda, sem referências após os numerosos casos de corrupção no Partido dos Trabalhadores (PT) que levaram à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

Amaral, que prefere se definir como "progressista", pensa que "os dois lados precisam da renovação. Todo mundo fala que a esquerda está velha, que não tem novos líderes, mas a direita tem? O centro tem?", pergunta.

"O espectro ideológico democrático não preparou novos líderes e ficou isolado no poder", acrescenta, em referência aos partidos que dirigiram o país desde o fim da ditadura militar (1964-1985).

Amaral não participa, assim como o PDT, da campanha que exige a libertação de Lula.

"Para quem vem da periferia significa muito ter tido Lula como presidente, mas me entristece que nossa política tenha estado tão marcada pela corrupção nestes últimos anos", afirma.

Em sua curta vida legislativa tem mostrado certo pragmatismo ao se posicionar, por exemplo, a favor de uma alternativa ao projeto de reforma da Previdência do governo, ao invés de votar contra, o que lhe valeu críticas de setores da esquerda.

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