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A luta delas vale medalha

Por Prefeitura de São Paulo

11/03/2019 00h02

Uma história de batalhas ao lado da mãe preparou a atleta Aline Silva para vencer na luta olímpica e na vida

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Muita gente acha que luta não é coisa de mulher. Talvez não saibam que as mulheres são feitas de luta.

O peso da criação dos filhos, de acertar ou de errar, vai sempre pra mulher

Diz a vice-campeã mundial de luta olímpica e primeira medalhista brasileira da modalidade, Aline Silva, 32. Ela se refere à cobrança que, mesmo aos 11 anos, sentiu sua mãe receber ao criá-la sozinha. Justo dona Lídia, sua maior inspiração e "fundamental" em sua trajetória, foi acusada de não a educar bem. Isso porque foi com essa idade que Aline começou a matar aula escondido e, um dia, na rua, bebeu até ficar em coma alcoólico.

"Minha mãe não desconfiava. Minhas notas eram ótimas, porque eu sempre amei leitura. Amava livros por influência dela, que sempre andava com um debaixo do braço", lembra Aline. A escola nunca tinha avisado a mãe sobre as faltas, e Lídia soube de tudo quando a filha foi encontrada desmaiada na rua. 

A realidade estava muito longe da imagem de mãe negligente.

Sempre vi ela lutando muito para mostrar que era possível me criar sozinha. Sempre batalhando muito sem reclamar, sem colocar nenhum empecilho em nada, sempre exigindo muito de mim. Se eu tirava alguma nota mais baixa e dissesse que a turma inteira foi mal, ela não queria saber. Dizia: "a turma inteira não é você. A turma inteira não é minha filha. Você não pode". Então desde muito nova ela sempre me cobrou muito, não só na fala. Ela também sempre foi muito exigente com ela mesma.

Ainda assim, nesse momento lembrado 20 anos depois como crítico em suas vidas, as duas só puderam contar uma com a outra.

Julgaram muito a minha mãe, e me julgaram muito. Diziam "a Aline está perdida, vai engravidar cedo, vai ser dependente pro resto da vida", esse era o tipo de coisa que a gente ouvia. Sempre que acontece algum problema, a responsabilidade é só da mãe. A gente até costuma usar umas frases automáticas e nem percebe como são machistas. Por exemplo, quando vê uma criança fazendo bagunça, fala: cadê a mãe dessa criança? Ou quando alguém é mal-educado, diz "sua mãe não te deu educação?". Tudo isso mostra o tanto que a sociedade coloca de responsabilidade para a mulher da criação dos filhos.

Com o peso de uma crise familiar dessa magnitude, somado ao peso do julgamento, a mãe de Aline acrescentou mais um item ao seu já pesado fardo de responsabilidades: pagar uma escola particular. Lá, Aline conheceu o judô. 

Esse meu 1º sensei foi uma pessoa muito importante. Quando eu tinha uns 15 anos, ele me levou para treinar no Centro Olímpico da Prefeitura de São Paulo com os filhos dele. E lá eu conheci a pessoa que mudaria tudo: Joenilson Rodrigues, sensei de judô que também dava aula de luta olímpica. Desde o início, ele já insistia para eu ir para a luta. E eu resistia, não queria, porque era um esporte pouco conhecido. Achava até que era pouco praticado no mundo, não só no Brasil. Mas ele foi bem insistente, e acabou mudando minha vida.

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O Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP) é o equipamento da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SEME) voltado ao esporte de alto rendimento. Na prática, isso significa que ele funciona como um clube com foco em esportes olímpicos, levando crianças e jovens de 5 a 19 anos que tenham certo nível de desempenho para competições municipais, estaduais, nacionais e até internacionais. Ele é palco de muitas seletivas. Uma delas marcou Aline, e pesou na decisão de aceitar a mudança de modalidade.

Quando eu estava no COTP, ainda no judô, teve uma seletiva que daria uma ajuda de custo por determinado tempo para quem passasse. Não ganhei. Eu chorava muito, porque talvez tivesse que parar com o esporte, precisava ajudar minha mãe. Falei para meu sensei que tinha que ter ganhado pela minha mãe, que queria muito chegar em casa e falar para ela que eu ia ter como ajudar.

Para se ter uma ideia, até comprar quimonos para lutar estava fora do alcance da família da atleta. A insistência do treinador de luta olímpica sobre o potencial de Aline, o disputado cenário do judô e a diferença de custo de cada modalidade levaram a atleta a fazer a escolha mais acertada de sua carreira. Na luta olímpica, Aline se tornou a primeira atleta brasileira - homem ou mulher - a conquistar uma medalha em Mundial.

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Desde o início, sempre lutei muito para provar que todos estavam errados quando disseram que minha mãe não estava sabendo me criar, que eu não tinha jeito. E para devolver para ela tudo que ela fez por mim, pra provar para ela que tudo que ela estava batalhando por nós ia valer a pena, para devolver tudo o que fez por mim, sabe?

Hoje, dona Lídia tem uma caixa com, por enquanto, 190 medalhas da filha. Entre elas, a prata no Mundial de 2014, e duas medalhas de Pan-Americano.

Fora do tapete, Aline luta também por uma sociedade mais justa com as mulheres. Tem um projeto social que leva esporte, inglês e autoestima para meninas, e foi eleita a Mulher do Ano 2018 pela Federação Internacional de seu esporte. Consciente, ela vê com gratidão e emoção o sacrifício de sua mãe, mas não glamuriza a abnegação feminina.

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"Minha mãe sempre trabalhou muito, muito mesmo. Quando digo trabalhar muito, significa que fui ver minha mãe sair com amigos, ter algum relacionamento com qualquer pessoa, ter vida, olhar um pouquinho pra ela mesma, cuidar um pouquinho dela - coisa que ela ainda não faz muito - depois que eu já tinha 20 anos. Nunca vi minha mãe ter um namorado, sair de festa e me deixar na minha avó, sair para se divertir uns dias com os amigos, um final de ano do trabalho, não! O tempo todo era sempre trabalhando muito, sabe?", conta. Mas, ao mesmo tempo que valoriza, lamenta: "Isso não é o ideal".

Para compensar o que a mãe abriu mão, ela também luta: 

Essa é a nossa forma de demonstrar amor. Não somos muito de ficar falando eu te amo, muita coisa de carinho. Mas a gente demonstra com atitude. Ela é tudo pra mim.