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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Sua puta': agressão de procurador prova que vivemos epidemia de misoginia

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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

23/06/2022 04h00

A cena causa medo em qualquer mulher. É impossível ver as imagens em que a procuradora Gabriela Samadello Monteiro de Barros é agredida por um colega de trabalho, o também procurador Demétrius Oliveira Macedo, e não sentir pavor. "Será que isso pode acontecer comigo?" "Será que agora, além de tudo, posso apanhar no meu ambiente de trabalho?". Não tem como uma mulher brasileira ver as cenas e não se fazer essas perguntas.

O vídeo, que de tão horrível pode acabar com a semana de qualquer uma (se é que dá para ter uma semana boa depois do caso de menina de 11 anos impedida de fazer um aborto), viralizou nas redes sociais. A história é muito real, infelizmente.

Na segunda-feira (20), Gabriela, de Registro, interior de São Paulo, estava trabalhando quando foi atacada e agredida a socos e pontapés por Demétrius.

Três de suas colegas mulheres tentaram protegê-la e impedir as agressões. Todas elas também foram empurradas por ele. Demétrius não só bateu nela com extrema violência, como também, durante a agressão, disse, com ódio: "Sua puta".

É até difícil encontrar um exemplo de misoginia tão escancarado quanto o sujeito espancar uma colega de trabalho e a chamar de "puta". O ódio às mulheres é tão explícito nesse caso que chega a dar vontade de chorar.

Gabriela contou que foi agredida depois de denunciar o colega, que tinha uma atitude péssima com as mulheres no ambiente de trabalho. O ataque só prova que ela estava certa ao fazer a denúncia. Mas também levanta muitas perguntas.

Como esse sujeito foi contratado e mantém um emprego público? Os outros colegas dele (ei, homens!) não percebiam, assim como Gabriela, que ele tinha um comportamento violento com mulheres? Quantos viram essas atitudes horrorosas e "deixaram passar"?

Vivemos um momento de ataque contra as mulheres no Brasil. Em apenas dois dias vimos uma criança de 11 anos sendo agredida psicologicamente por uma juíza que tentou forçá-la a não fazer um aborto e, agora, uma mulher sendo brutalmente agredida e chamada de "puta" no trabalho.

Após a agressão, Gabriela prestou depoimento à polícia. No dia, Demétrius foi ouvido, mas logo liberado. Na tarde de quarta-feira, depois do vídeo viralizar, a Polícia Civil de São Paulo pediu a prisão preventiva do procurador.

Os casos não são coincidência. Há anos os direitos das mulheres são atacados e a misoginia liberada. Os exemplos de misóginos famosos são muitos e podem inspirar outros. O próprio presidente do país já foi condenado por dizer que uma mulher era "muito feia para ser estuprada". Um vereador do Rio de Janeiro, acusado de pedofilia, estupro e abuso, Gabriel Monteiro, não só não perdeu seu cargo, como tem chance de ser muito votado como deputado.

Eles não são os únicos, existem outras centenas de mensagens mandadas por poderosos de que o ódio a mulheres está liberado. Nesse ambiente, homens que odeiam mulheres se sentem autorizados a esculachar, xingar, cuspir e, de fato, machucar.

"Foi exposta a minha dignidade. Como mulher, fui desrespeitada, assim como servidora pública. Enfim, foi um desrespeito global da minha personalidade", disse Gabriela. Ela não está sozinha. Todas nós nos sentimos desrespeitadas.