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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Feminização da fome: 47% das mulheres sofrem com falta de comida no Brasil

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Imagem: iStock
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

27/05/2022 04h00Atualizada em 04/06/2022 15h50

Quarenta e sete por cento das mulheres brasileiras vivem sem saber se vão poder comprar comida no dia seguinte. Sim, quase metade das pessoas do sexo feminino não tiveram dinheiro para fazer supermercado no período da crise econômica agravado pela pandemia do coronavírus, em 2021. E, para piorar: é difícil imaginar que a situação esteja melhorando esse ano.

Esse número assustador faz parte de um levantamento feito pelo Centro de Políticas Sociais da FGV Social, que analisou os números do instituto Gallup World Poll, que faz pesquisas em 160 países.

Na pesquisa sobre a fome, eles fizeram essa pergunta básica para pessoas de todos esses países: "nas últimas 12 horas você teve que deixar de comprar comida por falta de dinheiro?" No caso do Brasil, 36% das pessoas responderam que sim (26% dos homens e 47% das mulheres, olha a discrepância).

No caso das mulheres, não é difícil se lembrar de razões que fazem com que a "insegurança alimentar", um termo técnico para "não saber se vai conseguir comer ou alimentar seus filhos " seja muito maior do que entre os homens.

Mulheres, quando têm emprego, ganham 70% do salário dos homens no geral. E também ocupam mais empregos informais que os homens (o que fez com que muitas ficassem sem trabalho durante a fase mais grave da pandemia.)

Mas nem tudo é culpa da pandemia. Algumas das razões são antigas e estruturais: 47,8% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Isso significa que elas são inteiramente responsáveis por botar comida na mesa, além de pagar aluguel, comprar material de colégio para os filhos, etc.

Em muitos casos, elas são a única fonte de renda de famílias com crianças pequenas. Esse número é ainda maior nas periferias do país. Motivo? Um deles é que os homens vão embora, ou não pagam pensão. Como diz Emicida na música "Levanta e Anda": "A mãe assume e o pai some, de costume. No máximo é um sobrenome".

Essas mães, para piorar, na maioria das vezes têm trabalhos informais, sem carteira assinada, e ficaram sem trabalho durante a pandemia.

E agora, com o fim do lockdown, as coisas não estão melhorando. Pelo contrário. Imagina ter que sustentar sozinha três crianças no momento? Mesmo mulheres de classe média privilegiadas como eu são capazes de imaginar o quanto isso é difícil.

Imagina uma mãe que sustenta quatro pessoas com um salário mínimo?

Segundo levantamento do IBGE, no geral, os alimentos no Brasil ficaram 15% mais caros do ano passado até agora. Mas o que vemos no dia a dia nos supermercados é ainda pior.

Alguns legumes, como a cenoura, por exemplo, teve uma alta de 195% em um ano. Que tal? A batata, por exemplo, que sempre foi um alimento básico na mesa das famílias brasileiras, teve um aumento de 38,68%. O preço médio do litro de leite, por exemplo, subiu de R $4,29 no ano passado para R $7,25, segundo levantamento da empresa de inteligência de mercado Herus.

Como colocar comida na mesa para as crianças? E como a gente consegue dormir com uma notícia dessas?

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, mulheres ganham, em média, 70% do salário dos homens, segundo IBGE.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL