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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Teste da interesseira': influencer de carros deveria ser banido do YouTube

Reprodução/ Canal Maiki 021
Imagem: Reprodução/ Canal Maiki 021
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

10/05/2022 04h00

Os nomes dos vídeos já dão uma pista do horror que está por vir: "Interesseira me beijou para andar na Amarok", "Testando mulher interesseira de Corvette". "Batalha das interesseiras da XJ6". "A interesseira me beijou só para andar de BMW". Esses são títulos de vídeos do canal do youtuber Maiki da Silva Soares, o Maiki 021, que teve o conteúdo extremamente machista denunciado ontem em UOL Carros.

No canal, que tem mais de 13 milhões de inscritos, Maiki "testa" o quanto mulheres são interesseiras. Todo o conceito, assim como as palavras que ele usa para se referir às mulheres, são o suficiente para que a gente ateste, depois de assistir a alguns dos seus vídeos, que esse é um dos canais mais machistas do YouTube Brasil.

Assistir aos vídeos dá enjoo. Os de maior sucesso do canal funcionam da seguinte maneira: Maiki pega um carro, ou uma moto popular e sai com eles para "testar mulheres". Isso significa passar aquelas cantadas podres oferecendo carona. Na maioria dos vídeos, as mulheres (que têm o rosto embaçado pela edição) dizem não para o assediador de moto ou carro barato. E sim quando ele aparece de moto ou carro potente.

Os tais testes são exibidos como se fossem reais. Mas meu palpite, e de especialistas consultados pelo "Roda Presa", é que os vídeos são pré-combinados, mas tudo dando um tom "natural" de pegadinha ou "teste de personalidade".

Os vídeos de maior sucesso são as "batalhas de fidelidade", onde o youtuber "testa" a reação às suas abordagens dependendo do carro ou moto que ele usa.

No que assisti, ele abordava uma mulher com uma moto vagabunda. Depois, com uma potente. Na primeira vez, a mulher o ignorava. Na segunda, aceitava a sua carona. Esse vídeo teve mais de 25 mil comentários e até patrocínio, no caso, de um aplicativo de futebol chamado OneFootball.

O ódio a mulheres é expresso o tempo todo na forma usada pelo youtuber para falar com elas. Mulheres são expulsas de carros, achincalhadas. "Sai daqui, interesseira". "Vai embora, não gosto de mulher fácil". Essas frases são ditas em tom de nojo e desprezo nos vídeos.

Os vídeos são feitos para passar a impressão de "testes reais", de pegadinhas que realmente aconteceram. Mas não parecem ser reais. Tudo soa combinado demais.

Real, ou não, mulheres são tratadas como lixo por ali. E, vamos lembrar de novo, o canal tem mais de 13 milhões de seguidores. A título de comparação. Anitta, a maior popstar do momento no Brasil, tem cerca de 16,4 milhões de seguidores.

Como é possível que um canal com conteúdo de ódio às mulheres tão explícito tenha só três milhões e meios de seguidores a menos que a Anitta? Como nunca tínhamos ouvido falar desse canal? Eu mesma não conhecia.

Isso significa que existe todo um público que realmente acha que mulher escolhe se sai ou não com homem por causa de carro e, mais sério ainda, acham superdivertido que elas sejam tratadas dessa maneira horrorosa. Nos vídeos, a maioria das mulheres são inimigas que merecem ser humilhadas e achincalhadas.

É chocante também que esse tipo de conteúdo de ódio às mulheres circule sem restrição pelo YouTube e que eles tenham inclusive marcas que se associam a esse tipo de conteúdo que mais parece filme de terror.

É tanta misoginia que dá até medo.