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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro, Damares e Aras fazem homenagem ao Dia da Mulher virar ofensas

Jair Bolsonaro (PL), em evento de 8 de março, no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira/Folhapress
Jair Bolsonaro (PL), em evento de 8 de março, no Palácio do Planalto Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Colunista do UOL

09/03/2022 12h31

Era para ser um dia de homenagens, mas mais pareceu um pesadelo. Ontem, Dia Internacional da Mulher, personagens do governo brasileiro, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, resolveram prestar suas homenagens. Eles até se esforçaram. Mas acabaram nos ofendendo de diversas formas.

Vamos começar pelo presidente, que conquistou fama internacional como misógino. Junto a ministros e aliados, ele participou de uma cerimônia especial no Palácio do Planalto dedicada ao Dia da Mulher. Em um cenário rosa-choque e vestindo uma gravata... cor-de-rosa —como se para exaltar as mulheres bastasse produzir um cenário "estilo princesa"—, ele pegou o microfone e disse: "Hoje, as mulheres estão praticamente inseridas na sociedade".

Fica até difícil comentar. Mas vamos lá. As mulheres, que o presidente acha "quase são parte da sociedade", ou seja, são quase cidadãs, formam, aproximadamente, 50% da força de trabalho do país. Segundo o IBGE, somos 52,2% da população brasileira e chefiamos 40% dos lares brasileiros. Por ironia, o presidente colocou a gravata rosa para tentar conquistar o voto feminino.

Sim, apesar de as mulheres apenas "fazerem parte da sociedade", desde 1932 podemos votar. E, no que depender do voto feminino, o presidente perde no primeiro turno. Apenas cerca de 20% das mulheres pensam em depositar seu "sim" a ele, segundo pesquisa do PoderData.

Na mesma cerimônia, usando uma camiseta da mesma cor do cenário, Damares Alves, ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, disse que o governo era "cor-de-rosa".

Na sua cerimônia de posse como ministra, comemorou dizendo: "Esse é um novo tempo, meninas vestem rosa e meninos vestem azul". No quarto ano de governo, ela parece ainda acreditar nisso. Em seus discursos, agradeceu os "meninos" (os ministros) que ajudam o governo a ser "cor-de-rosa".

Transformar uma pauta feminina em cenário de festa de 15 anos é ofensivo. Não somos meninas pedindo favores aos meninos da escola. Somos pessoas adultas, com pautas sérias e urgentes, que envolvem a nossa luta por sobrevivência.

Unhas pintadas

Em outro evento, promovido pelo Conselho Nacional do Ministério Público, o procurador-geral da República, Augusto Aras, conseguiu ir além. Ele disse que a data serve para homenagear "a mulher que tem o prazer de escolher a cor da unha que vai pintar. A mulher que tem o prazer de escolher o sapato que vai calçar".

Há anos gritamos que o Dia Internacional da Mulher é sobre luta por direitos, como equidade salarial, creches públicas e luta contra a violência de gênero. Aí vem uma autoridade dessas, procuradora-geral da República, nos resumir a pessoas que escolhem cor de esmalte e modelo de sapato. Como se fôssemos Barbies.

Há anos, o Dia da Mulher não tinha um gosto tão amargo.