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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Ataque dos Cães': vencedor do Globo de Ouro é aula de masculinidade tóxica

Benedict Cumberbatch vive o machista Phil no filme da Netflix - Reprodução / Internet
Benedict Cumberbatch vive o machista Phil no filme da Netflix Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

11/01/2022 04h00

"Precisamos corrigir o comportamento dos homens." Quem disse isso não fui eu, mas um homem, mais precisamente o ator Benedict Cumberbatch , um dos protagonistas do filme "Ataque dos Cães", da Netflix. Dirigido por Jane Campion, o longa foi vencedor do Globo de Ouro de melhor filme, melhor direção e melhor ator coadjuvante para Kodi Smit-McPhee. A premiação ocorreu no domingo (9).

Na história, Cumberbatch interpreta um supermachista: o cowboy Phil, um homem infeliz, solitário, que rechaça qualquer sensibilidade e tem horror a homens femininos e a mulheres, as principais vítimas de seu ódio.

Phil é um exemplo perfeito da masculinidade tóxica, inclusive porque ele é muito infeliz. E esse tipo de comportamento, além de matar mulheres, faz muito mal para os homens. Mas o mais curioso: apesar de ele ser um personagem do início do século passado, tem um comportamento que podemos reconhecer em vários homens que conhecemos.

O ator que dá vida ao personagem parece saber disso. Na entrevista que deu para à emissora britânica SKY News, ele disse ainda que "os homens precisavam se calar e ouvir". "E, ao mesmo tempo, filmes como esse podem nos ajudar a entender as razões do comportamento opressivo e consertar os homens".

Essa tarefa não é tão simples. Mas o filme mostra, sim, o quanto a masculinidade tóxica é ruim, solitária e infantil.

Voltando à história: Phil toma conta de um rancho com o irmão George (Jesse Plemons), também solitário e infeliz, mas menos macho. Por isso mesmo, ele é chamado de "gordo flácido" pelo irmão, que, tal qual uma criança de cinco anos, se recusa a tomar banho. De novo, nada muito diferente da realidade atual, não? Ou você não conhece homens que acham, por exemplo, que usar perfume não é coisa de macho? Ou prefere passar frio a usar um cachecol?

Em uma das primeiras cenas do filme, Phil humilha um adolescente delicado que ajuda a mãe viúva e que faz arranjos de flores de papel, essa "coisa de maricas". Resumindo a história: George se apaixona pela mãe do garoto afeminado, Rose (Kristen Dunst) . Os dois se casam, e a agressividade de Phil explode.

Ele não é o único a sofrer com a própria masculinidade. Em uma das cenas mais fortes do filme, seu irmão, George, chora escondido da mulher ("homem não chora") e confessa para ela que "era a primeira vez na vida que não se sentia sozinho".

O terceiro homem do filme é Peter (Kodi Smit-McPhee), o garoto sensível, afeminado, que toma bullying dos cowboys. Nessa história, a mulher, infeliz, se afunda no alcoolismo.

"Ataque dos Cães" (alerta de spoiler) mostra de maneira sutil uma relação platônica entre o cowboy machão e o menino delicado. Mas o mais marcante é a infelicidade e a solidão dos personagens.

Se eles se permitissem dançar — até isso é um tabu —, se divertir e seguir seus desejos, seriam menos sozinhos, miseráveis e solitários.

Não sei se o filme ajuda a "consertar" os homens. Mas que pode ajudá-los a ver o quanto a masculinidade tóxica faz mal para eles, isso pode.

E, claro, o filme tinha que ser dirigido por uma mulher. Por sinal, Jane Campion é a terceira mulher nos 79 anos do Globo de Ouro a ganhar o prêmio de melhor diretora. Mais uma prova de que, apesar de passar nos anos 1920, o filme é atual.