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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Julgamento de Sarí Côrte Real: chamar Mirtes de ingrata é cruel e elitista

Mirtes Renata é mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que caiu do nono andar de um prédio de luxo na área central do Recife depois de ser deixado sozinho no elevador pela patroa da mãe                              - DAY SANTOS/JC IIMAGEM
Mirtes Renata é mãe de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos, que caiu do nono andar de um prédio de luxo na área central do Recife depois de ser deixado sozinho no elevador pela patroa da mãe Imagem: DAY SANTOS/JC IIMAGEM
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

16/09/2021 04h00

Pela primeira vez, Sarí Corte Real, ré no processo que investiga a morte de Miguel Otávio, de 5 anos, prestou depoimento para a Justiça sobre o caso nesta quarta-feira (15) em uma Audiência de Instrução e Julgamento realizada em Recife. Miguel morreu ao cair do 9º andar de um prédio de luxo, em junho de 2020, após a ex-primeira-dama do município pernambucano de Tamandaré deixá-lo sozinho no elevador.

Desde a morte do filho, Mirtes luta por justiça. E Sari, que chegou a ser autuada, não ficou nenhum dia presa. Ela foi denunciada pelo Ministério Público de Pernambuco por abandono de incapaz com resultado em morte com agravante de cometimento de crime contra criança e em calamidade pública. Depois de julgamento, ela pode ser presa.

A história é terrível e o Brasil inteiro já conhece. No dia 2 de junho de 2020, na primeira fase da quarentena, a então empregada doméstica Mirtes Renata foi trabalhar e levou o filho Miguel Otávio, de 5 anos, junto, já que ele estava sem aula. Sua patroa, Sari Cortes Real, integrante de uma família tradicional de Pernambuco, pediu que Mirtes fosse passear com o cachorro.

Enquanto fazia as unhas, ela ficou responsável por Miguel. Nesse meio tempo, o menino entrou no elevador, subiu até o nono andar, de onde caiu e morreu. Imagens de circuito interno chocaram o país. Nelas, é possível ver que Sari Cortes Real aperta botões do elevador

Segundo Mirtes e seus advogados, a defesa da socialite usou como estratégia a culpabilização da vítima e de sua mãe. O menino seria muito bagunceiro, portanto, mal-educado.

Não é de hoje que as vítimas são culpabilizadas no Brasil, principalmente quando elas são mulheres, negras, pobres. Agora, é assombroso que o comportamento de um menino de 5 anos seja citado para justificar a sua morte. Crianças não são responsáveis por si mesmas, elas precisam ser cuidadas por adultos. E quem cuidava de Miguel era Sarí Côrte Real, uma mulher adulta.

"O que me deixa muito triste é que querem tirar a culpa dela e tentar colocar em mim, questionando a educação que eu dei ao meu filho. Como se eu não fosse uma boa mãe", disse Mirtes, em coletiva realizada ontem.

Sem equilíbrio emocional?

Na manhã de ontem, o advogado de Sarí, Celio Avelino, disse que a versão de que Miguel estaria sendo culpabilizado seria "fantasiosa". "A mãe de Miguel, eu me solidarizo com a sua dor, perder um filho na mais tenra idade. É evidente que ela não tem equilíbrio emocional de analisar o caso racionalmente".

"Desequilibrada". É assim que muitas mulheres são tratadas quando demonstram emoção e são fortes, caso de Mirtes, que desde que o filho morreu, não só não descansou como passou a estudar direito com o objetivo de defender outras crianças negras. Sem equilíbrio emocional, doutor?

Só falta dizerem que a mãe de Miguel seria uma louca ingrata. Mas, espera, segundo Mirtes, algo parecido com isso já foi dito.

"Disseram que eu e minha mãe estávamos sendo ingratas. Ingrata? Ela matou meu filho. Eu deveria ser grata só porque quando ela viajava para o exterior ela trazia um agrado? E não era agrado. Aquilo era pagamento. Eu fazia muito por ela."

É comum na classe média e alta brasileira, que empregadas domésticas sejam chamadas de pessoas da "família" ou tratadas como coitadas que receberam "uma oportunidade" pela qual deveriam ser gratas pelo resto da vida. Sim, essa lógica escravagista ainda é muito presente na elite brasileira.

Mirtes não tem que ser grata a nada. Nem culpabilizada. Ela é vítima. É uma mãe que quer justiça para seu filho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL