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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Piada com estupro e assédios: machismo sempre fez parte do DNA do MBL

O coordenador do MBL Renan Santos, no escritório do MBL: piada com estupro volta a viralizar no Twitter - Eduardo Anizelli/Folhapress
O coordenador do MBL Renan Santos, no escritório do MBL: piada com estupro volta a viralizar no Twitter Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

14/09/2021 04h00

"Sabe qual é a semelhança entre feminista e miojo? Elas ficam prontas em três minutos e são comida de universitário." Essa piada foi publicada no perfil do Twitter por Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL e deputado federal, em 2014. A piada é velha. Mas é um bom exemplo para ilustrar o ódio às mulheres dentro do MBL (Movimento Brasil Livre), o grupo que dividiu opiniões ontem ao organizar protestos contra o presidente Jair Bolsonaro.

A misoginia é uma das bases do MBL. Por isso, foi com zero surpresa, mas com enjoo, que assisti a um vídeo de 2018 mas voltou a circular na internet no domingo (12). Nele, um dos líderes do grupo, Renan Santos, faz um jogral para uma multidão em uma passeata, onde faz uma "brincadeira" que culmina com uma multidão repetindo que uma mulher seria estuprada.

"Se o bar estiver fechado sabe o que vai acontecer com a Bárbara? Ela será estuprada". A multidão repete, ri e comemora. O vídeo causou repulsa. No Twitter, a suposta Bárbara citada disse que tratava-se de uma brincadeira e que o vídeo era antigo e defendeu o grupo.

Bem, estupro não é brincadeira. E ver uma multidão dizendo que uma mulher deve ser estuprada não tem graça. É nojento e assustador.

Essas manifestações de ódio contra as mulheres são parte da identidade do MBL, o movimento que cresceu convocando manifestações contra Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil. Claro que qualquer grupo tem direito a se manifestar contra o presidente que for, independente do seu gênero. O problema é que nessas manifestações Dilma Rousseff era retratada pelo grupo como louca, feia, com imagens para lá de pejorativas e sexistas.

Mas mesmo assim (e talvez por isso, infelizmente) o grupo ganhou visibilidade e elegeu deputados. Mas o machismo, ele sempre esteve lá. Várias mulheres já foram atacadas e ofendidas pelo grupo.

Mais um exemplo: ano passado, um dos pop stars do MBL, o atual deputado estadual por São Paulo Arthur do Val, o Mamãe Falei, então candidato a prefeito de São Paulo, fez uma live para exibir o debate de candidatos de São Paulo. Durante a exibição em seu canal no Youtube, a candidata pela Rede, Marina Helou, foi vítima da misoginia do grupo. Na live, um dos "comentaristas", Tiago Pavinatto, fez um gesto obsceno com a língua (mulheres sabem do que estou falando, já que essa é uma prática de homens que assediam nas ruas).

Os ataques às mulheres já fizeram com que integrantes do grupo tivessem problemas com a justiça. E não são poucos.

Em 2016, ano em que estudantes secundaristas ocuparam escolas, Renan Santos, junto com Arthur do Val e outros integrantes do grupo, resolveram visitar as ocupações, onde intimidaram os estudantes. No Paraná, alunas da escola Colégio Estadual do Paraná afirmaram que depois de ouvirem questionamentos agressivos, os integrantes teriam passado a mão em seus corpos como forma de intimidação. Elas prestaram queixa na delegacia da mulher por assédio sexual.

Esse tipo de "piada" afeta todas as mulheres e normaliza um crime horrendo - aliás, a fica ainda pior quando a própria vítima passa pano. Por essas e outras, o tal vídeo onde eles fazem "piada" com estupro chocam, mas não surpreendem nenhuma mulher que acompanhe a história recente do Brasil. É assim que eles são.

E é por isso, inclusive, que muitas de nós se negaram a ir a uma passeata organizada por eles. A Marcha Mundial das Mulheres, por exemplo, emitiu um comunicado antes da manifestação dizendo que não iriam às ruas com "esses oportunistas, golpistas e misóginos".

A Ministra Damares Alves, que nunca se manifestou contra nenhum desses abusos praticados pelo MBL, disse na segunda-feira (13) que pediria uma investigação ao Ministério Público contra o grupo e demonstrou surpresa com o comportamento deles.

Sério que a senhora ainda não sabia que eles odeiam as mulheres, Ministra? Ou quando o ódio era direcionado só para feministas, estudantes e políticas progressistas estava tudo bem?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL