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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indignado com DJ Ivis? Então, pare de passar pano pra agressor no dia a dia

DJ Ivis foi filmado agredindo a ex-mulher - Reprodução/Instagram
DJ Ivis foi filmado agredindo a ex-mulher Imagem: Reprodução/Instagram
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

13/07/2021 04h00

Quantas mulheres você conhece que já foram vítimas de violência doméstica? Estou falando de todas aquelas que já levaram tapas de namorados, que já foram jogadas no chão por maridos e também daquelas que já levaram apertões no braço durante uma discussão (sim, isso também é violência doméstica). Estou aqui para dar uma notícia: elas estão perto. Muito mais perto do que você imagina.

Se você for mulher, talvez essa notícia não seja tão surpreendente, já que possivelmente saiba de alguém que já passou por isso (se não aconteceu com você mesma). Digo isso porque conheço mais de meia dúzia de mulheres que já foram vítimas de violência doméstica, e falo de pessoas próximas, com intimidade o suficiente para me contarem elas mesmas.

E não sou eu que conheço muitas mulheres que já foram agredidas. São as agressões que são frequentes. Enquanto estamos chocadas com o caso do DJ Ivis, que agrediu Pamella Gomes com socos e pontapés, outras milhares são agredidas. Segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, oito mulheres são agredidas por minuto durante a pandemia. As cenas horríveis que vimos no vídeo nas quais o DJ agride a mulher acontecem mais de uma vez por minuto. É chocante.

É bom ver tanta indignação com o caso do DJ Ivis. Mas o que fazemos quando essas histórias acontecem perto da gente? Denunciamos os agressores? Banimos essas pessoas de nossos ciclos sociais? Ou você ainda conversa com aquele cara que "uma ex espalhou que apanhou dele" porque "ele não tem cara de quem faria uma coisa dessas" ou porque "você não pode julgar". Ou, ainda, caia na conversa dele e acredite que "a mulher que espalha isso é louca."

É fácil se indignar na internet depois de ver um vídeo de violência doméstica (e é o mínimo, quem não se chocar com isso nem está vivo). Agora, se indignar e agir na vida real é bem mais difícil — também muito mais necessário.

O Brasil vive uma epidemia de violência doméstica. Se oito mulheres são agredidas por minuto, você conhece algumas delas. E, claro, também conhece agressores. E agora?

Bem, no caso dos homens, se querem mesmo que essa situação não se repita, podem, por exemplo, não passar pano para um colega que agride uma mulher. Ou você vai continuar amigo de um agressor? Cabe a nós, mulheres, não acreditar quando um cara diz que "uma ex maluca inventa coisas".

Se existe um boato de que um homem bateu em uma mulher, é porque deve, sim, ser verdade. Nesse caso, existe uma mulher sofrendo, que deve ser apoiada. E um homem agressor que deve ser punido e encarar a gravidade dos seus atos.

Lembre-se do vídeo no qual DJ Ivis agride cruelmente a ex-namorada na próxima vez que pensar em relevar o fato de um colega ser acusado de ter batido em uma mulher.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL