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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Goleiro Bruno se faz de vítima ao dizer que mídia "destruiu sua carreira"

Goleiro Bruno Fernandes em janeiro de 2020, dez anos após o assassinato de Eliza Samúdio - Cristiane Mattos/O Tempo/Folhapress
Goleiro Bruno Fernandes em janeiro de 2020, dez anos após o assassinato de Eliza Samúdio Imagem: Cristiane Mattos/O Tempo/Folhapress
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

13/07/2021 15h56

Em 2013, o ex goleiro Bruno Fernandes foi condenado por homicídio triplamente qualificado. O crime é horrendo. Em 2010, depois de matar a ex-namorada, Eliza Samudio, ele e seus comparsas teriam dado seus ossos para um cachorro. Outra parte do seu corpo teria sido enterrada sob cimento.

De lá para cá, Bruno passou anos preso, mas vez ou outra foi contratado para jogar em algum time, que aproveitava a sua "popularidade" para fazer propaganda. Sim, é um desrespeito com todas as mulheres que ele tenha fãs e que donos de clube se aproveitem da "fama" de um assassino de mulher para lucrar. Mas aconteceu.

Essas tentativas de transformar um assassino em ídolo do futebol sofreram críticas, claro. E Bruno decidiu se aposentar do futebol.

Mas ele continua bem. Está em regime semi aberto e trabalha como operador da bolsa de valores.

Nesta terça-feira (13), mais um escárnio. Em entrevista dada ao podcast "Urubu 81" e publicada pelo jornal "Extra", Bruno declarou que sua carreira tinha sido destruída pela mídia. Pelo jeito não passa pela sua cabeça que sua carreira acabou porque ele cometeu um crime horrendo. E, escuta, o que é uma carreira comparada à vida de Eliza, que além de tudo era mãe de um filho de Bruno, que na época só tinha quatro meses? Durante a entrevista, inclusive, ele falou dos seus três filhos de outro relacionamento, mas ignorou Bruninho, para quem, segundo a avó, ele não paga pensão.

Na entrevista, no lugar de mostrar culpa, ele soltou pérolas como:

"O futebol mudou muito. Hoje eles olham para essa questão de imagem, o jogador bad boy não é enxergado como era antigamente". Espera, ele acha que um assassino condenado de matar uma mulher é um "bad boy" que deveria ser valorizado? Não, assassino é assassino.

E continua: "A mídia meio que colocou sobre o Bruno uma prisão perpétua, como se ele não pudesse recomeçar. Sendo que a nossa legislação fala que a gente tem que ser ressocializado, com trabalho, para ser o provedor da casa. No meu caso não. Infelizmente enterraram meu sonho, meus objetivos, minha profissão".

Bruno tem, sim, o direito de trabalhar. Tanto que o faz. O que não é possível de aceitar é que um assassino condenado de uma mulher, que usou requintes de crueldade, seja ídolo, uma espécie de herói. E, não, não venha você falar sobre sonhos enterrados. Além de desrespeito, isso chega a ser de mau gosto.

Mas o absurdo continua. Bruno, além de se fazer de coitado, tem um ego enorme. "Onde eu saio, aonde eu vou, eu arrasto multidões. Sou abraçado, acolhido, principalmente no Rio de Janeiro. Então, o que mais pegam no meu pé é a questão midiática"

O pior de tudo é que ele não está mentindo totalmente, nesse caso. Ele tem, sim, fãs. Em seu perfil verificado no Instagram (como assim, Instagram?) Bruno tem mais de 87 mil seguidores, que lhe mandam palavras de incentivo e se declaram.

Absurdo? Sim. Mas essa semana nos chocamos com o fato do DJ Ivis ganhar mais de 100 mil seguidores depois que um vídeo dele batendo na ex-mulher viralizou. Infelizmente, faz sentido que nesse mesmo país um goleiro condenado por matar uma mulher tenha fãs e se sinta um ídolo mal compreendido.

1.338 mulheres foram mortas por feminicídio no Brasil ano passado, segundo levantamento da Folha de S. Paulo. O fato de um assassino condenado se sentir injustiçado e culpar a mídia é um retrato dessa cultura conivente com a violência contra a mulher. Mas que é um escárnio, isso é.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL