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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Luísa Sonza: até quando mulheres sofrerão julgamento moral e machista?

Luisa Sonza contou no Twitter que teve ataques de pânico devido as ameaças que sofreu - Reprodução / Internet
Luisa Sonza contou no Twitter que teve ataques de pânico devido as ameaças que sofreu Imagem: Reprodução / Internet
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

12/05/2021 04h00

Vamos imaginar o seguinte. Um casal popular em uma cidadezinha do interior termina um casamento. Como ninguém sabe o motivo, os fofoqueiros da cidade começam a espalhar que a mulher do casal traiu o sujeito. Ela ganha fama de "galinha", "mal-agradecida", "péssima". Passam um ano xingando a mulher. Até que ela se cansa e diz: "mas gente, eu nem traí ninguém!"

Parece uma história dos anos 50, um tempo longínquo onde mulheres que exerciam sua sexualidade eram "galinhas" e tinham que ser gratas a quem casava com elas. Mas aconteceu agora, em 2021. E não foi em uma cidadezinha, mas no Brasil todo. Os personagens: Luísa Sonza, seu ex, o humorista Whindersson, e seu atual, o cantor Vitão. Essa separação e seus desdobramentos é um dos assuntos prediletos dos fofoqueiros de plantão, uma espécie de obsessão.

Quando Luísa e Whindersson avisaram que iriam se separar, no ano passado, ela foi detonada nas redes sociais, onde recebeu uma enxurrada de mensagens de ódio. E também na vida real. Além de falarem que ela teria traído o ex-marido, ela ainda foi julgada por abandonar o marido em um momento difícil. Sim, Whindersson sofre de depressão, mas que isso tem a ver? E, claro, os motivos da separação de um casal, seja famoso ou não, não são problema nosso.

Mas o tempo passou. Luísa Sonza namora Vitão e Whindersson casou e vai ser pai. Era para já terem esquecido. Mas "fama de galinha" e "traidora" é uma coisa que pega até hoje em dia. Lembrete didático: não, nenhuma mulher é galinha ou qualquer uma dessas palavras. A gente fica com quem a gente quiser.

Quase um ano depois, Luísa fez um post no Twitter onde reclamava da vida, do governo Bolsonaro, da pandemia... O que aconteceu? Ela levou pedra de novo, no maior estilo Geni (aquela da música do Chico Buarque, "ela é feita para apanhar, ela é feita para cuspir, ela dá para qualquer um) e chamada de traidora.

No Twitter, a influenciadora disse que estava cansada de ser atacada e contou que ela e o namorado recebem xingamentos até quando andam na rua!

Uma mulher ser xingada na rua porque tem fama de "traíra" é tão absurdo e caricato que assusta. E explicou que não, ela nunca tinha traído ninguém, inclusive o ex que teria terminado o casamento. Ela só não contou porque não queria expor ninguém. Whindersson confirmou.

Resumo do absurdo: ela passou um ano sendo apedrejada nas redes sociais e na vida por algo que não fez. E é importante lembrar: se ela tivesse traído o ex, isso também não era motivo para que ela fosse atacada. Casamentos acabam. Traições acontecem. Assim é a vida. O que é inacreditável é que essa tendência a culpar uma mulher e chamá-la de traidora continue a acontecer tão descaradamente...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL