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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB 21 ensinou sobre gaslighting, xenofobia, ativismo e racismo

Big Brother Brasil é um vitrine social e palco de importantes discussões - Reprodução/Globoplay
Big Brother Brasil é um vitrine social e palco de importantes discussões Imagem: Reprodução/Globoplay
Clara Fagundes

Clara Fagundes

Clara é sergipana, futurologista e comunicóloga. Pesquisadora graduada e pós-graduada na USP, cria conteúdos educativos na internet e faz projetos incríveis com marcas conectadas aos futuros. Ama gente, cinema e escrever

Colaboração para Universa

05/05/2021 12h33

O BBB é o maior reality show do país. Uma vitrine social, com pessoas reais competindo e sendo gravadas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Por isso, ano após ano, questões sociais - e urgentes - que acontecem aqui fora emergem lá dentro e no público.

Os temas abordados durante o BBB vão para os assuntos mais comentados do Twitter, disparam nas pesquisas do Google e viram conhecimento popular. Analisar o BBB com olhar crítico é uma forma de massificar os debates. Como homens tratam mulheres? Como brancos tratam pretos? Como microagressões acontecem? Onde começam? Quem são as pessoas que passam nas seletivas? Por que não "cabem" no BBB pessoas gordas, indígenas, com deficiência, com mais de 40 anos?

Abaixo, listo alguns aprendizados ao longo dos últimos cem dias do reality show mais assistido do país:

Homens amam homens

Em todo o BBB21, pudemos observar homens amando e defendendo homens e desprezando mulheres. A aliança entre Arthur e Projota, que desprezava Carla. A facilidade de Fiuk em perdoar Rodolffo, enquanto vilanizava Juliette e a chamava de louca por muito menos. A justificativa de Rodolffo para colocar Carla no paredão: "não foi leal a Arthur".

Isso é um sintoma do patriarcado. Está no mercado de trabalho, no cinema, em casa, nas relações, na nossa cultura misógina.

Ativismo narcisista

O ativismo limitado à própria vivência marcou as primeiras semanas da edição. Os ativistas narcisistas reduzem causas coletivas a experiências e dores individuais e, com frequência, invalidam ou reforçam as violências que não vivem.

"Não concorda comigo? Então é contra tudo que eu represento! E se você não passa pelo que eu passo... Suas dores não são reais."

É uma das razões para movimentos sociais não se fortalecerem com a união, afastando pessoas que poderiam ser aliadas. Também abre brechas para pessoas deslegitimarem causas sociais importantes porque: "esses militantes são todos assim". Saiba mais.

Gaslighting, a estratégia de desestabilizar mulheres

Fiuk usou gaslighting algumas vezes na edição, principalmente contra Juliette.

Não sabe o que é? O gaslighting é uma estratégia silenciosa de manipulação, feita com a intenção de desestabilizar e/ou descredibilizar mulheres. São táticas sutis, que fazem a vítima pensar que é sempre culpada ou que está ficando louca.

Sabe o cara que:
- Adora debochar "brincando", mas fica indignado se você não gostar ou reagir?
- Mesmo errado, sempre consegue te passar a culpa?
- É pego na mentira ou no erro, mas insiste tanto que não fez ou disse aquilo que você chega a duvidar da própria sanidade mental?
- No jeitinho, questiona a sua capacidade e mina a sua autoconfiança aos poucos?

Tudo isso é gaslighting.

Racismo, machismo, LGBTQIAfobia, xenofobia... Infelizmente, tudo passa

Esses preconceitos "passam" aqui fora, como não passariam no BBB? Por isso, precisamos estar atentos. Principalmente, para as microagressões, o preconceito disfarçado de piadinha, o olhar torto, o desconforto silencioso, a facilidade inexplicada de odiar a pessoa por seu "jeito".

Não seja a pessoa que debocha de sotaques e culturas, resume pessoas à sua origem, apelida alguém com o nome do estado ou do país de onde vem faz isso. Pessoas de todos os lugares são plurais e complexas.

Não seja uma guardiã de homens

Sarah foi a guardiã de homens do BBB21, mas todo mundo já conheceu - ou foi - uma. "Guardiã de homens" foi o termo que cunhei para descrever mulheres que protegem homens e vilanizam mulheres. Que têm orgulho de ser "diferentes" das outras, de só terem homens como amigos e que aumentam erros femininos enquanto perdoam facilmente os masculinos.

Na paredão que a eliminou, Sarah aprendeu o que toda guardiã aprende um dia: se precisarem escolher, homens vão priorizar homens e descartá-las. Ela os defendeu durante todo o programa, mas eles não fizeram o mesmo por ela. Nem farão.

As mulheres primeiro!

Homens e mulheres erram, mas os erros femininos parecem mais graves, calculados e imperdoáveis que os masculinos. Afinal, entendemos mulheres como maduras, responsáveis. Já os homens são imaturos, meninões... Manipuláveis.

Olhos menos atentos não notam que, por trás desses pensamentos (que até parecem elogios às mulheres), moram a culpabilização e a vilanização feminina. São ideias que permeiam educação, cultura, mídia e até as relações com outras mulheres.

No BBB, a lógica de responsabilizar mulheres e isentar homens aconteceu entre participantes... E no público, aqui fora. Inclusive, por conta dela, Fiuk passou ileso em vários paredões e acabou conquistando o seu lugar na final. Ou você não viu ninguém garantindo que "ele sairia depois"?

É possível aprender com BBB. Espero que tenha feito algum efeito em você.

* Clara Fagundes é sergipana, futurologista e comunicóloga. Pesquisadora graduada e pós-graduada na USP, cria conteúdos educativos na internet e faz projetos incríveis com marcas conectadas aos futuros. Ama gente, cinema e escrever.