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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Karol Conká foi péssima, mas precisa ser defendida de ataques após BBB

Karol Conká no BBB 21 (Reprodução/TV Globo). - Reprodução / Internet
Karol Conká no BBB 21 (Reprodução/TV Globo). Imagem: Reprodução / Internet
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista de Universa

23/02/2021 19h00

A rapper Karol Conká é uma das mulheres mais odiadas no Brasil no momento. Até dá para entender, já que seu comportamento no BBB, que tem batido recordes de audiência. tem sido indefensável

No programa, Karol fez bullying, mentiu, manipulou, praticou abuso psicológico. Suas atitudes são péssimas. Karol, segundo enquete do UOL, deve sair hoje do programa com mais de 97% dos votos.

Merecido. Assim como a maioria dos espectadores, também quero que ela saia. Talvez o programa fique menos tóxico sem alguém que manipula tanto os outros.

Agora, o que espera Karol na vida real, a partir de hoje, depois que ela sair? Como ela será recebida?

Sim, eu me preocupo com Karol Conká, uma mulher negra e rapper de 34 anos, mãe solteira de um adolescente em um país machista e racista como o Brasil.

Nas redes sociais, ela já sofre ataques racistas. No TikTok existem perfis de ódio à cantora onde circulam memes do estilo: "quer dar um tapa na Karol Conká?". E não, isso não é nada engraçado.

Segundo estudo feito pelo pesquisador Luiz Valério Trindade para a Universidade de Southampton, na Inglaterra, 81% das mulheres negras entre 20 e 35 anos são vítimas de discurso discriminatório e de ódio nas redes sociais.

Se isso acontece com a maioria das mulheres anônimas, imagina o que pode acontecer com uma mulher famosa, odiada por por cerca de 98% das pessoas que veem o programa, que esse ano bate recordes de audiência?

E quando ela sair na rua, como vai ser? Vão berrar com ela, tacar coisas, linchar? Mulheres negras estão, sim, mais sujeitas a esse tipo de violência. Um exemplo: por que será que mulheres negras na política sofrem mais ameaças que mulheres brancas e muito mais ataques do que os homens?

Não sou a única a me preocupar. Ontem, a cantora Anitta manifestou esse sentimento. "Amei Karol no paredão igual todo mundo. Não concordo com nada que ela fez e faz no jogo... Mas, ainda assim, temo pelo que pode acontecer com ela quando sair. Espero que ela possa andar na rua e tenha ajuda psicológica quando sair. Desejo que saia, que se dê mal no jogo porque fez um péssimo jogo, que tenha a consequência de seus atos, mas que possa ter oportunidade de aprender e ter uma vida quando sair."

É isso mesmo. Karol errou e muito. Difícil ver o programa sem nutrir raiva por ela e seu comportamento. Agora, será que também não passamos do ponto com nossa torcida apaixonada?

E tem mais, como vi vários amigos argumentando nas redes sociais, Karol não é a única (o) participante do BBB que foi insuportável na casa.

Em 2017, por exemplo, o médico Marcos Hater foi expulso do programa depois de ser acusado de agressão contra a sua namorada na casa, Emilly Araújo. Todos vimos a imagem dele encostando a namorada na parede e deferindo berros. Hoje, Marcos trabalha como cirurgião plástico e tem um milhão de seguidores no Instagram. Paula von Sperling, que foi acusada de racismo e intolerância religiosa, tem mais de 3 milhões de seguidores e trabalha como influencer.

O mínimo que nós, que torcemos para Karol sair e até celebramos a sua rejeição, podemos fazer é brigar para que ela também tenha o direito de ter uma vida normal e que seja protegida quando sair do programa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL