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Nina Lemos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É proibido envelhecer em Hollywood? Aos 35, Carey Mulligan faz mulher de 56

Carey Mulligan como Edith Pretty em "A Escavação", da Netflix - Reprodução/IMDb
Carey Mulligan como Edith Pretty em 'A Escavação', da Netflix Imagem: Reprodução/IMDb
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Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

04/02/2021 04h00

Não é de hoje que mulheres denunciam o preconceito contra idade em Hollywood. Para as atrizes, existe uma espécie de prazo de validade. Quando as mulheres passam dos 45, elas somem dos papéis principais.

Nos últimos anos, o assunto tem sido finalmente discutido e denunciado. Mas, pelo jeito, não tem sido o suficiente. Prova: na nova atração do Netflix, o filme "A Escavação", que estreou dia 29 com elenco de estrelas, uma mulher de 35 anos, Carey Mulligan, interpreta uma de 56.

O filme é baseado na história real de Edith Pretty, uma mulher que tinha 56 anos quando achou tesouros arqueológicos em sua propriedade na Inglaterra.

Não existe atriz dessa idade em Hollywood?

A escolha tem sido muito criticada. Isso porque trocar uma mulher de 56 por uma de 35 não foi um acidente ou uma escorregada. Esse é um padrão que vem sendo denunciado pelas atrizes e que causa muito sofrimento.

"Eu esperava que fosse ser difícil envelhecer em Hollywood, mas não que seria tão desesperador", disse a atriz Geena Davis, aquela de Thelma & Louise.

Geena, que hoje tem 65 anos, criou, junto com o instituto que leva seu nome, o "Instituto Geena Davis de Mulheres na Mídia" um teste sobre o tema, que foi divulgada ano passado. O levantamento avaliou os 30 filmes de maior bilheteria de 2019 e procurou em quais apareciam duas características: pelo menos uma personagem mulher com 50 anos mas com peso na trama e se a personagem foi representada sem apelar para estereótipos de idade.

O estudo concluiu que nenhuma atriz com mais de 50 anos estava no papel principal. No caso dos homens, dois atores com mais de 50 foram protagonistas.

Além disso, as mulheres eram representadas com estereótipos negativos, como frágeis, doentes mentais e por aí vai.

Só para lembrar, George Clooney tem 59. Keanu Reeves tem 56. Os dois, como se sabe, continuam fazendo papéis de heróis, o que é ótimo, mas poderia valer para mulheres também.

Não é o que acontece. Em entrevista, a atriz Dakota Johnson, 31 anos e na crista da onda, desabafou sobre o preconceito sofrido por sua mãe, Melanie Griffith, de 63 anos. "Por que minha mãe não está no cinema? Ela é uma atriz extraordinária. Esta indústria é brutal pra c* Não importa o quão durão você seja, às vezes há a sensação de não ser desejado. É absurdo e cruel." disse.

É claro, o desaparecimento de mulheres de meia-idade das telas não acontece só em Hollywood. Claudia Raia, de 54 anos, resumiu perfeitamente o que ser passa:

"O Brasil é um país extremamente machista, é um machismo estrutural, ou seja, quando a mulher para de ovular, ela parece que deixa de existir. É como se ela tivesse uma data de validade, caísse em um limbo, um buraco negro e só vai ressurgir aos 80 como a vovó fofa."

Infelizmente, o preconceito contra a idade acontece em outras áreas também, praticamente em todas.

O que torna o tal buraco negro das atrizes mais perigoso é: como nós, mulheres de mais de 40, vamos nos sentir bem com a nossa idade se a gente simplesmente desaparece dos filmes e séries que assistimos?

Só voltaremos a ser representadas quando formos vovozinhas? E até lá? Vamos ficar trancadas enquanto os homens grisalhos continuam com fama de charmosos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL