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Nina Lemos

Marcius Melhem precisa entender que denuncia de abuso não é cancelamento

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Imagem: Reprodução
Nina Lemos

Nina Lemos é jornalista e escritora e mora em Berlim. É feminista das antigas e uma das criadoras do 02 Neurônio, que lançou cinco livros e teve um site no UOL no começo de 2000. Foi colunista da Folha de S. Paulo, repórter especial da revista Tpm e blogueira do Estadão e do Yahoo. Escreveu também o romance "A Ditadura da Moda".

Colunista do UOL

26/10/2020 04h00

"Foram casos de assédio sexual mesmo. De mulheres falando não, não quero, me solta, não vou beijar, não vou ficar com você. E ele tentando, agarrando. Não tem zona cinzenta, isso é violência." A acusação (seríssima) foi feita pela advogada Mayra Cotta em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha. O homem em questão é o ator e diretor Marcius Melhem, que foi demitido da TV Globo em agosto depois que mulheres, entre elas a atriz Dani Calabresa, denunciaram os abusos que afirmam ter sofrido por parte dele para a empresa.

A advogada representa um grupo de mulheres funcionárias da Globo que se dizem vítima do ator. Para elas, ele ter sido demitido sem que a empresa fale os motivos e se posicione claramente contra o que elas viveram não é o suficiente. O assunto é grave. Elas querem que seja esclarecido.

Segundo a advogada, são mais de 30 pessoas envolvidas na denúncia (entre supostas vítimas e testemunhas). Seis mulheres, pelo menos, correram o risco de denunciar Melhem, que era chefe do departamento de humor da Globo. Tem que ter muita coragem para denunciar o chefe. E isso não é uma coisa que você faça porque "está com raiva", por exemplo.

Se coloque na situação delas, você teria coragem de denunciar um chefe? E o quanto esse chefe teria que ser realmente abusivo para que você fizesse isso? Como a sua vida deveria estar um inferno para que você não tivesse medo que ele prejudicasse toda a sua carreira?

Como disse uma amiga, a denúncia contra Melhem não é um "exposed" do Twitter ou um cancelamento, essas palavras da moda, que são banalizadas todos os dias. Não estamos falando de um cara que mostrou comportamento machista e por isso mulheres resolveram o expor na internet. É muito mais sério. Por isso, a denúncia tem que ser tratada com toda a gravidade.

Melhem parece não ter percebido ainda que ele não está sendo acusado de "ser babaca", mas de um crime. E, sim, são coisas muito diferentes.

Em tuítes, publicados ontem, ele diz:

"Estou disposto a reconhecer meus erros, pedir desculpas e, se possível, reparar pessoas que eu tenha de qualquer forma magoado. Quero enfrentar isso com verdade e humanidade e me expor se for preciso." Ótimo, mas assédio sexual é crime, então, a questão não é "ter magoado", é ter cometido abuso, traumatizado as vítimas.

Depois de se explicar muito (ele disse, inclusive, que "abraça profissionalmente a causa feminista", esperando o quê? Um agradecimento?), o ator negou as acusações. E ok, só uma investigação, se houver de fato, vai dizer se ele é culpado ou não. Mas ele poderia perceber que não se trata de erros ou vacilos, mas de crimes.

Marcius Melhem não é mais um "cancelado", mas uma pessoa acusada de assédio moral e sexual em ambiente no trabalho. Ele, e ninguém, pode fazer pouco da seriedade disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL