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Ele terá um bebê: 'Sou uma pessoa com útero e capacidade de estar gestando'

Edu França está esperando por Teresa: parto deve acontecer em abril de 2022 - Zo Guimaraes /UOL
Edu França está esperando por Teresa: parto deve acontecer em abril de 2022 Imagem: Zo Guimaraes /UOL

Luiza Souto

De Universa

25/12/2021 04h00Atualizada em 25/12/2021 14h08

Juntos há 4 anos, o analista de banco de dados Edu França, 30, e a educadora popular Lana de Holanda, 31, terão o primeiro bebê, Teresa, em abril. Ainda não sabem se a criança será ariana ou taurina, mas já conseguiram planejar algumas coisas como dar à menina algo com o escudo do Flamengo e ensinar que o pai e a mãe, duas pessoas trans, darão todo acolhimento que eles não tiveram quando assumiram a identidade com a qual se reconhecem. E que sua configuração familiar seja vista como ela é: normal e cheia de amor.

"As pessoas, às vezes, acham que estamos na vanguarda, revolucionando, mas somos um casal que se ama e que engravidou, como a imensa maioria. Claro que lutamos pelos direitos das pessoas iguais a gente, mas a nossa família não é uma bandeira. Ela deveria ser natural, como toda a família deveria ser", frisa a assessora parlamentar, de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

"Não tem nada de revolucionário assim. Sou uma pessoa com útero que tem a capacidade de estar gestando", complementa Edu, natural de São Paulo.

Edu e Lana darão à luz Teresa, em abril de 2022 - Zo Guimaraes /UOL - Zo Guimaraes /UOL
Edu e Lana estão juntos há quatro anos
Imagem: Zo Guimaraes /UOL

"Daremos a ela o melhor possível"

Acompanhado da gata Frida, homenagem à pintora mexicana que usou cores para provocar debates sobre questões de identidade e gênero, o casal conta que já planejava um bebê em casa, na Lapa, região central do Rio, para daqui a dois anos. Mas como uma ariana —ou taurina— nata, Teresa teimou em se antecipar.

Com a novidade, vieram preocupações normais a qualquer pessoa grávida, principalmente em tempos de pandemia: se o bebê nasceria saudável, se viria sofrer violências antes mesmo de nascer, se haveria leite para alimentá-lo. Edu retirou os seios durante o processo de transição de gênero, e explica que não haverá leite suficiente para amamentar a criança. O casal fala que até poderia passar por estímulo, mas precisaria usar muito hormônio, e preferiu não arriscar. Eles pretendem alimentar a criança com fórmula.

"Comecei a me informar sobre banco de leite, mas ele é insuficiente, inclusive, para os bebês que estão em UTI, então tenho trabalhado muito o emocional, porque eu gostaria de poder dar o melhor, mas daremos o possível", assegura Edu.

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Edu conta que anda tenta entender como as pessoas o enxergam
Imagem: Zo Guimaraes /UOL

"Ainda não entendo muito como as pessoas me leem"

Com a barriga despontando, o casal tem evitado ao máximo sair de casa, não somente para escapar da contaminação pelo coronavírus ou influenza, ou qualquer outra doença, mas se distanciar de possíveis reações adversas a um homem carregando um filho no ventre. "As pessoas já odeiam trans, num país que mais mata essa comunidade no mundo. E uma violência contra ele não seria só com ele, mas com o bebê", atenta a mãe.

Mas apesar dos temores, Edu se coloca numa certa posição de privilégio por ser bem acolhido pelos seus.

"A gente tem tido sorte de estar numa bolha de pessoas muito acolhedoras. E moramos numa região muito central da cidade, com fatores que fazem com que a gente tenha um pouco mais de segurança do que se não tivesse acolhimento ou morasse longe", ele aponta.

Gestar tem sido um processo muito potente para mim. Tenho estudado coisas que não conhecia como violência obstétrica, além de tentar compreender como a sociedade lida com meu corpo. Ainda não entendo muito como as pessoas me leem na rua Edu França

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Edu e Lana chamarão primeira filha de Teresa
Imagem: Zo Guimaraes /UOL

Primeira gestação aos 21

Há um movimento interessante de casais que têm escolhido um nome unissex para registrar seus bebês, como Cris, filho dos influenciadores Boca Rosa e Fred. Lana e Edu preferem chamar a filha de Teresa, até para homenagear o bairro vizinho a eles de Santa Teresa, de onde guardam lembranças boas juntos. E prometem concentrar as energias numa criação livre da criança.

"Se um dia ela quiser, terá a liberdade de decidir não se chamar mais Teresa", Lana explica. "E a gente escolheu não dar para ela uma educação neutra, não-binária, e sim não-sexista, para que ela entenda que o mundo vai reconhecê-la como uma menina, mas que se um dia ela descobrir que não é uma menina, ela pode ser o que quiser", complementa.

Essa não é a primeira gestação de Edu: aos 21, enquanto se identificava como mulher, engravidou de uma pessoa com quem teve um breve relacionamento, mas perdeu a criança com pouco mais de 3 meses de gravidez.

"O processo é horrível, mas a forma como os hospitais lidam com quem perde é muito ruim, porque te colocam no mesmo espaço de quem está ganhando o filho. Não tem um carinho, um afeto", ele lembra.

Para essa gestação, o casal conta que está sendo melhor acolhido por uma equipe de um hospital público da cidade, mas prefere não revelar o nome para evitar ataques à unidade.

"Várias enfermeiras falaram que é o primeiro caso de um trans grávido, e que iriam se informar sobre tudo para melhor me acolher. É um lugar progressista, que lida com a gestação de forma muito humana. Tenho um corpo com útero, então não há muita diferença", ele fala.

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Licença-paternidade garantida
Imagem: Zo Guimaraes /UOL

Burocracia para pessoas trans precisa ser revista

O único senão nessa rede de saúde, o casal atenta, é o sistema burocrático do governo que somente identifica pacientes pelo sexo biológico. Para ter atendimento ginecológico, por exemplo, Edu precisa ser registrado no sistema do SUS como mulher:

"Até me pediram desculpas por isso, no hospital, e explicaram que, no cadastro, meu nome continuaria Eduardo, mas teria que constar sexo feminino para a gente fazer o pré-natal."

A licença-paternidade seria uma outra questão a se olhar. Pela legislação atual no Brasil, o pai tem o direito de tirar 20 dias de licença para cuidar de uma criança, enquanto a licença-maternidade são 120 dias. Não há citação específica para pessoas trans, mas como Edu e Lana trabalham na área de direitos humanos —ele numa ONG e ela na equipe da vereadora Monica Benício, do PSOL—, reconhecem que nem houve questionamentos sobre os direitos dos dois.

"As pessoas lidam da forma mais tranquila possível, o que eu acho que não aconteceria em outros espaços. Tenho o privilégio de trabalhar num espaço que entende sobre LGBTQIA+", celebra Edu.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do publicado, a lei prevê licença-maternidade de 120 dias.

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