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Ela bomba nas redes quebrando tabu sobre sexo e deficiência

Daniella: "Alguns homens acham que, porque falo de sexualidade, dou liberdade para receber qualquer tipo de mensagem, mas não é assim" - Reprodução/Instagram
Daniella: "Alguns homens acham que, porque falo de sexualidade, dou liberdade para receber qualquer tipo de mensagem, mas não é assim" Imagem: Reprodução/Instagram
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Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista de Universa

08/10/2021 04h00

Expoente das redes sociais - em apenas dois meses, ela arrebatou mais de 200 mil seguidores só no TikTok -, Daniella Cristina Martins, 23 anos, faz sucesso desnudando a deficiência física. "Eu costumo dizer que a deficiência ainda é vista como um bicho de sete cabeças. As pessoas têm curiosidade, mas receio de perguntar, até porque nosso país invisibiliza as pautas das pessoas com deficiência. Você não vê informações com tanta frequência em programas de TV, por exemplo, então as pessoas querem saber mais", explica.

Natural de Montes Claros, cidade mineira com pouco mais de 400 mil habitantes, Daniella, que é acadêmica na área de publicidade, produz conteúdos relacionados à sexualidade, inclusão e acessibilidade. "Acho que meu crescimento nas redes se deu por causa disso, estou sempre disposta a falar abertamente e a responder as perguntas de forma leve e bem-humorada. Não tenho problema em falar sobre nada porque acho que a gente precisa desmistificar a deficiência."

"Que História É Essa, Porchat?"

O trabalho de Daniella não se restringe à internet. Durante uma temporada em que morou sozinha no Rio de Janeiro, ela conheceu dois ídolos: Tatá Werneck e Fábio Porchat. No programa dele, "Que História É Essa, Porchat?", do GNT, contou um apuro que passou por ser uma mulher com deficiência visual.

"Cheguei no BRT (ônibus de trânsito rápido do Rio) e as pessoas estavam passando por mim e desviando, ninguém parava. Dez minutos depois, um cara ofereceu ajuda. Ele disse: 'Tenho algumas notícias pra te dar: a primeira é que estou fugindo da polícia. A segunda é que estou armado. Você quer minha ajuda mesmo assim?'. Respondi: 'Tá bom, aceito'. Fiquei com medo de ele achar que eu tenho preconceito", relembrou dando risada, sobre o dia em que um desconhecido a acompanhou até a clínica onde faz exames de rotina.

Incentivo à independência

Daniella nasceu prematura aos 6 meses e teve retinopatia da prematuridade (ROP). Por conta disso, enxerga apenas vultos e claridade. A ROP afeta vasos internos do olho e é uma das principais causas de cegueira infantil na América Latina. No Brasil, estima-se que a cegueira causada pela ROP atinja de 500 a 1.500 pacientes por ano. Alguns dos fatores de risco são: prematuridade, baixo peso ao nascimento, oxigenoterapia prolongada e exposição à luz intensa dos berçários.

"Precisei ficar na incubadora para tomar banho de luz. Não tomaram os cuidados necessários no hospital e tive deslocamento da retina. Desde então, perdi a visão dos dois olhos", explica. Em alguns casos, a retinopatia prematura é reversível; noutros, mais graves, não.

Daniela conta que a mãe a teve muito nova, aos 15 anos, e fez o possível para tentar reverter a retinopatia da filha. Quando viu que não teria como, começou a prepará-la para o mundo.

"Fui alfabetizada por uma professora brailista aos 4 anos. Minha mãe fez questão de acompanhar todo processo. Fez o curso de braile e trocávamos cartas e bilhetinhos para que eu pudesse treinar a leitura. Ela nunca foi de passar a mão na minha cabeça porque eu tinha deficiência. Sempre me ensinou a fazer tudo, desde arrumar o armário até me maquiar, e incentivou minha independência."

Caminhos para a acessibilidade

Nas redes, entre TikTok, Instagram e Twitter, em pouco mais de um ano a influenciadora conquistou 260 mil seguidores. Mais do que obter engajamento virtual, Daniella pretende, com suas vivências, conscientizar as pessoas sem deficiência sobre a importância da acessibilidade — e os detalhes fazem toda a diferença.

"A acessibilidade não está só ligada ao governo e às políticas públicas. É lógico que isso é importante, mas ela está muito ligada também a atitudes do dia a dia. É uma foto que você descreve nas redes sociais; é um vídeo que você legenda; é um cardápio digitalizado que você disponibiliza; é a disposição para descrever os produtos da sua loja; é o site que você torna acessível... São coisas pequenas que todos podem fazer para que o mundo se torne cada vez mais acessível a todos", pontua.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 17,3 milhões de pessoas com deficiência no país, o que representa 8,4% da população acima de 2 anos. A Pesquisa Nacional de Saúde foi realizada em 2019, em parceria com o Ministério da Saúde, e divulgada em agosto deste ano.