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Ela deixou Santo André (SP) para ser babá nos EUA: "Era sonho inalcançável"

Júlia Soares no Charles River, um dos cenários do filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" - Arquivo Pessoal
Júlia Soares no Charles River, um dos cenários do filme "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" Imagem: Arquivo Pessoal
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

20/01/2021 04h00

"Eu tinha uma vida muito simples no Brasil. Nunca tinha saído de São Paulo. Comecei a trabalhar em shopping aos 16 anos, até que decidi ser babá nos Estados Unidos e minha vida mudou", conta Júlia Soares, 24, num vídeo que viralizou nas redes e já foi visto mais de 3 milhões de vezes no TikTok e no Instagram.

Nascida em Santo André, no ABC paulista, a quase 8.000 quilômetros de Boston, capital de Massachusetts, onde vive atualmente, Júlia lembra que o sonho de morar fora do país parecia estar muito distante de sua realidade.

"Desde pequenininha eu sempre tive noção de trabalho e de dinheiro, porque eu via a minha mãe trabalhando muito pra conseguir sustentar a mim e a meu irmão sozinha. A gente sempre teve dificuldade financeira. Nunca tivemos esses luxos de viajar, de comprar coisas bobas como roupas, tênis. Então sair do país sempre foi um sonho muito inalcançável."

Julia 1 - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
A paulistana Júlia Soares, 24, é babá e influenciadora digital nos Estados Unidos
Imagem: Reprodução/Instagram

Vivendo com uma família americana há 1 ano e 5 meses, Júlia atua como au pair, um tipo de intercâmbio em que se exerce funções de babá, e cuida de duas crianças que têm hoje 2 e 4 anos. "Eu dei muita sorte, eles são incríveis!", elogia.

Além de remuneração compatível, há vantagens culturais, como o aprendizado de um novo idioma, por exemplo. Nos Estados Unidos, au pairs recebem entre U$ 200 e U$ 300 por semana, por 45 horas semanais de trabalho, o que equivale a um salário que pode passar de R$ 5.000 por mês.

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Júlia trabalhou para a CET de São Paulo em campanhas de conscientização sobre o trânsito. Com o salário de meses, realizou o intercâmbio
Imagem: Arquivo Pessoal

Trabalho durante a pandemia: "Foi um choque"

"Quando vim pra cá, meu objetivo principal era viajar e aproveitar o quanto eu pudesse. Eu não sabia quando teria outra oportunidade assim, sabe? A pandemia começou quando eu estava havia 6 meses aqui, e foi um choque. Fiquei presa com duas crianças, trabalhando 9 horas por dia, com os pais em casa, sem poder ir para lugar nenhum. Foi muito difícil", conta.

"Por mais que você esteja morando aqui, você nunca sente como se fosse sua casa. Então muitas vezes, aos finais de semana, eu ficava trancada no quarto o dia todo sozinha. Essa sensação já é difícil demais em tempos normais, numa pandemia, então, que tá literalmente todo mundo preso junto, é pior ainda."

Três anos de planejamento para viajar

Júlia levou três anos planejando, estudando inglês e juntando dinheiro para esse intercâmbio. Na época, ela gastou R$ 2.000 com preparativos.

Apesar dos contratempos causados pela pandemia, ela celebra a afinidade que sempre teve com a família com que trabalha. Juntos, eles fizeram diversas viagens antes da quarentena. "Até para o Canadá!", comemora. Ela também visitou Los Angeles, San Diego, Nova York, Chicago, Miami e conheceu cenários que só tinha visto em filmes, como uma das locações de "Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças" (2004), um lago congelado que fica em Boston.

Mas nem todas as pessoas que fazem o intercâmbio têm a mesma sorte.

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Júlia com a mãe e o irmão mais velho antes de embarcar sozinha para Boston
Imagem: Arquivo Pessoal

Quando o sonho americano vira pesadelo

"Basicamente, você vem pra ficar um ano. Depois, pode escolher ficar mais 6, 9 ou 12 meses, aí você pode ficar com a mesma família ou trocar. Caso queira mudar de família, você tem duas semanas pra encontrar uma nova. Às vezes é amigável, mas às vezes é grave - já vi meninas expulsas de uma hora pra outra e a coordenadora da agência teve que ajudar a encontrar um local pra ficar", relata.

Ela diz ter uma amiga que precisou trocar três vezes de trabalho. "Foi horrível pra ela passar por isso, mas agora ela finalmente está com uma família ótima. Não é sempre que vai ser uma experiência boa logo de cara. Vale a pena vir se você tem esse sonho, mas não vai ser tudo perfeito o tempo todo. Tudo tem sua parte difícil, né?", alerta.

Realizando seu "american dream", Júlia pretende morar mais alguns anos nos Estados Unidos e estudar marketing. Já atuando como influenciadora digital, compartilhando sua rotina e informações sobre intercâmbio, ela conquistou mais de 60 mil seguidores no Instagram e no TikTok. "Aqui eu consigo juntar dinheiro, ajudar minha mãe e abrir algumas portas pro meu futuro. Sinto que mudei muito desde que vim pra cá, afinal me vi sozinha num país desconhecido e tive que me virar. Isso me fez crescer."