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A coisa mais bonita que me aconteceu este ano

Como resistir a essa carinha?  - Arquivo Pessoal
Como resistir a essa carinha? Imagem: Arquivo Pessoal
Ana Angélica Martins Marques

Ana Angélica Martins Marques

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Ana Angélica Martins Marques, a Morango, é mineira de Uberlândia, jornalista, fotógrafa e DJ. É também autora do livro de contos Quebrando o Aquário. Passou pela décima edição do Big Brother Brasil e só foi eliminada porque transformou o temido quarto branco no maior cabaré que você respeita. É vegetariana e cuida de três filhos felinos: Lua, Dylan e Mike.

Colunista do UOL

30/12/2020 04h00

A coisa mais bonita que me aconteceu este ano tem essa carinha aí. E um rabinho que se agita ao menor sinal de afeto. Tem olhos castanhos profundos e o semblante de quem já passou por muita, muita coisa nessa vida.

Conheci a Princesa nos primeiros dias de 2020. Não fazia nem três meses que eu tinha me mudado de São Paulo pra uma ilha bem pequena, de 50 mil habitantes, em Santa Catarina: São Francisco do Sul.

Eu tinha me apaixonado por esse lugar alguns anos atrás, por fotos na internet. Morar perto do mar era um sonho antigo. Talvez coisa de quem nasce longe da água salgada, como é o meu caso, que sou mineira de Uberlândia; talvez destino.

Vim com poucas roupas, alguns livros e meus três filhos felinos. Só. Toda a mudança coube em um carro. Alugado. Um dia a gente se dá conta de que a maior parte das coisas que tem não faz nenhuma falta. Porque são coisas. É como manter uma gaveta só pra guardar clipes, colas, borrachas e uns metros de sisal para eventualidades.

Mas a gente não usa nada disso nunca. E a gaveta fica lá bagunçada, incomodando uma parte que a gente nem se dá conta que existe na gente. Até o dia que sente. Muito.

Na ponta da praia

Um dia eu tava na ponta da praia - literal, não metaforicamente - e a Princesa chegou e se recostou em mim. Ficamos ali por umas duas horas. Imersas num absoluto silêncio contemplativo.

Quando me levantei, ela me acompanhou. Naquela época, um grupo de uns seis cachorros se reunia na minha rua, bem na porta de casa. Alguns de coleira, outros sem. A Princesa era um desses.

Aqui em São Chico muros baixos são bastante populares, o que faz com que mesmo os dogs que têm família saiam por aí em rolês com seus parças. De alguma forma todos os cães acabam sendo "comunitários".

Particularmente, não acho que o acesso à rua, onde os animais podem ser atropelados e ficam mais expostos a violências, seja ideal. Mas diante dessa realidade, os vizinhos costumam fazer o possível para que os cachorros - com ou sem lar - tenham algum conforto: não é preciso andar muito para encontrar vasilhas com água e ração pelo caminho.

Iti

Aqui, durante a maior parte do ano, a água do mar é quase morna. E a Princesa, como a maioria absoluta dos catioros, é apaixonada por água. Nossos encontros na praia se tornaram cada vez mais frequentes. E comecei a quebrar o silêncio perguntando se ela sabia que era a coisinha mais linda do mundo. Ela parecia entender. E colocava a patinha no rosto, mais ou menos como nenês fazem pra demonstrar vergonha.

Pela pandemia, parei de ir à praia. Os dogs deixaram de se aglomerar na minha rua. E uma densa nuvem de chumbo começou a pesar sobre os meus ombros.

Realizar as atividades mais triviais do dia a dia passou a ser um fardo. Tive bloqueio criativo. Não conseguia me concentrar, quase que de jeito nenhum, em nada. Comecei a quebrar. Em todos os sentidos.

Bebi como em nenhum outro ano. E tive ressacas inacreditáveis - que não me fizeram rever minhas atitudes. Da janela eu via o mar, mas enquanto era um alento, isso era também um constrangimento. Ter um teto e uma vista me põe em uma situação privilegiada - quase metade dos domicílios brasileiros não têm acesso à rede de esgoto, e isso é só uma pequena amostra da desigualdade abismal que a gente vive.

A Princesa e o Kitinho

Apesar dos potinhos de água e comida serem constantemente abastecidos pela vizinhança, o bonde canino deixou de frequentar a minha rua. Com exceção da Princesa, que começou a passar cada vez mais tempo aqui. E conquistou não só o meu coração, mas os de outros moradores. Foi castrada, ganhou uma casinha de madeira na garagem e todo o amor do mundo.

Kitinho - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Kitinho, o imprevisível
Imagem: Arquivo Pessoal

Foi estranho e gostoso me dar conta de que eu, que sempre fui apaixonada pela fleuma felina, estava completamente entregue à eletricidade de uma catiora.

A Princesa gosta de se atirar no mar quando persegue gaivotas e me dá abraços vigorosos com a força de um pequeno rinoceronte. Apesar disso, é uma gigante gentil: do auge de seus 42 quilos ela sempre entendeu e respeitou o espaço do Kitinho, o meu gato caçula, de 4 anos, que passeia de coleira e tem um décimo do peso e do tamanho dela.

Os dois sempre se olhavam de longe até que a Princesa - que tem esse nome pela sua docilidade - se deitou no chão e pôs a barriguinha pra cima para aquele gatito temperamental.

Isso aconteceu poucos dias atrás. Chorei na hora e tô desaguando de novo lembrando da cena.

Dentre as várias demonstrações de carinho da Princesa, a posição extremamente vulnerável em que ela se colocou diante de um animalzinho espevitado, que ela só tava acostumada a ver de longe, me tocou profundamente. E arrebatou o Kitinho, que retribuiu o gesto se deitando no chão ao lado dela.

<3

A coisa mais bonita que me aconteceu esse ano - que foi tão difícil em todos os aspectos - eu senti.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL