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Mariana Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recado para bar que não aceita crianças: 'Lugar de mãe' é onde ela quiser

praetorianphoto/Getty Images
Imagem: praetorianphoto/Getty Images
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Mariana Kotscho

Mariana Kotscho é jornalista, repórter do site Papo de Mãe, comentarista do "Bem Estar" da TV Globo, consultora do Instituto Maria da Penha e mentora de curso para jornalistas da Universidade de Columbia.

Colunista de Universa

06/04/2022 04h00

No último domingo (3), uma mãe foi impedida de entrar no bar Miúda, em São Paulo, com seu filho de 5 anos. A fotógrafa Marcelle Cerutti ouviu do funcionário do estabelecimento que Luca não era bem-vindo no local. Eram 17h e ela estava querendo participar da celebração de aniversário de uma amiga. Marcella, que segurava o filho em uma mão e uma mochila —com desenhos, brinquedos, livros e roupas de frio — na outra, ficou sem reação. "Jamais esperava que um lugar que aceita pets, bicicletas e tem como princípio a diversidade, fosse discriminar uma mãe solo", contou em entrevista a Universa.

A entrada de crianças deve mesmo ser proibida em locais perigosos, ainda mais desacompanhadas, o acesso a conteúdo pornográfico tem que ser impedido, devemos sim cuidar dos pequenos. Mas proibir a entrada de crianças em determinados locais ou o livre ir e vir delas, com o acompanhamento de adultos responsáveis, tem um nome: intolerância. O ambiente para elas deve ser seguro, como se imagina que seja um bar, um restaurante, uma festa.

Eu sempre levei meus filhos pra cima e pra baixo, até porque quando eram bebês eu amamentava e não havia razão para deixar em casa com a opção de uma mamadeira. Assim eles sempre foram comigo a consultórios médicos, dentistas, bares, restaurantes. Muitas vezes uma mãe não tem com quem deixar seus filhos e eles são parte de nós. Até pro trabalho numa redação cheguei a levar algumas vezes. Minha então bebê ficava de colo em colo enquanto eu precisava terminar um texto ou gravar algo. Isso se chama viver em comunidade, é a aldeia ajudando a criar a nova geração.

Você pode até dizer que não gosta de criança, mas não pode negar que já foi criança e nem se esquecer que sua mãe, pai ou cuidador já passaram por muitos perrengues por você.

"Aqui a gente não aceita crianças" certamente é uma frase muito triste de ouvir. Enquanto a gente luta tanto por inclusão, vem uma frase dessas que exclui. Exclui crianças. Exclui uma mãe. Uma mãe solo, ainda por cima.

Um direito do estabelecimento ou uma atitude discriminatória? Ali, mais do que a criança, a discriminada foi uma mãe. A polêmica é grande porque a lei não é exatamente clara, embora o ECA (Estatuto da criança e do adolescente) determine que todos são iguais perante a lei e é direito das crianças o convívio comunitário. O que é proibido é oferecer bebida alcoólica para criança e não impedir a criança de estar ali.

Então agora para sair de casa com nossos filhos e filhas temos que checar antes se eles são aceitos ou não? Já ouvi casos de casamentos e hotéis que proíbem crianças. Quando uma criança chora dentro do avião, por exemplo, em vez de fazer cara feia ou comentar que "devia ser proibido viajar com bebês", as pessoas deveriam se oferecer para ajudar.

Ariel de Castro Alves, advogado especialista em direitos humanos e membro do Instituto Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente explica que o caso gerou um constrangimento e uma situação vexatória para a criança, que pode se sentir culpada pelo impedimento da entrada da mãe e isso pode ser considerado um crime contra a criança. E ressalta que sendo à tarde, num bar, não há razão para a proibição acontecer.

Fica a sugestão: em vez de excluir, que tal se o bar, que se diz "para todes" resolvesse acolher? Não precisa muito, deixa uma mesa num canto com papéis e lápis de cor. Isso se chama humanidade, empatia, compaixão.

Lugar de mulher é onde ela quiser. Lugar de mãe também.