Topo

Mariana Kotscho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Imbroxável'?: É esse o presidente que prega a inocência das crianças?

Bolsonaro discursa em Brasília no 7 de setembro - Reprodução/TV Brasil
Bolsonaro discursa em Brasília no 7 de setembro Imagem: Reprodução/TV Brasil

Colunista de Universa

08/09/2022 13h01

Diálogo fictício, mas que pode ter acontecido esta semana em qualquer família brasileira, tradicional ou não:

- Mamãe, o que é imbroxável?, pergunta a criancinha.
- Onde é que você ouviu isso, menino?
-No discurso do presidente Bolsonaro, que eu estava assistindo de manhã na televisão. Ele disse que é "imbroxável, imbroxável, imbroxável".

E então a mãe se viu obrigada a dar uma resposta para a criança, em razão de uma fala totalmente descabida do homem que vive pregando que a "inocência" das crianças precisa ser preservada.

Ele costuma fazer isso criticando, por exemplo, a educação sexual nas escolas - tão necessária. Ou seja, um desserviço. Daí a mãe se pergunta: "Mas o que tem a ver esse homem falar de potência ou impotência sexual em pleno desfile de 7 de setembro?".

Vejam que contradição: ele critica algo que é fundamental para prevenir casos de abuso, de gravidez na adolescência, de doenças e, ao mesmo tempo, se utiliza de uma comemoração nacional para falar sobre seu próprio pênis.

Mas sempre pode piorar, né? Em seu discurso, o presidente também "ensinou" para os meninos que eles devem casar com princesas e, para as meninas, que elas devem ser princesas. Ou seja, esses homens não estão nos ajudando em nada a educarmos nossos filhos e filhas para relacionamentos saudáveis e uma sociedade igualitária.

Ora, esse negócio de "mulher pra casar" já era há muito tempo. Só não aprenderam ainda alguns destes homens brancos e com poder que nasceram no século passado. A gente pena para educar a garotada para uma vida melhor e eles querem voltar no tempo?

E os 200 anos de independência do Brasil se resumiram ao desempenho sexual do presidente. Ele queria se comparar a D. Pedro, que, dizem por aí, era impotente? Mas desde quando isso tem alguma relevância na política do país? O desempenho sexual do presidente deveria dizer respeito apenas a pessoas com quem ele se relaciona intimamente. Quem é que lá quer saber disso?

Se a moda pega, imaginem no próximo debate? Não me espantaria ele querer comparar tamanhos, habilidades. Avacalhação geral. Em outras palavras, uma grande baixaria que mostra que de "bons costumes" e "preservação da inocência", ali não tem nada.

Bom mesmo é que todas essas bobagens ditas nos fazem lembrar de Simone de Beauvoir, escritora e feminista, tão bem citada esses dias em artigos e redes sociais: "Ninguém é mais arrogante, violento, agressivo e desdenhoso contra as mulheres, que um homem inseguro de sua própria virilidade." E eu me arrisco a acrescentar um "contra as crianças também".

Respeitar a inocência das crianças é ter políticas públicas para a primeira infância, é não desviar verba da educação, é garantir comida na mesa, é combater o assédio sexual infantil, a exploração do trabalho infantil. É colocar a criança em primeiro lugar de fato, e sem falsos moralismos.

Vergonha define o que vimos e ouvimos no 7 de setembro.