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De onde tirar esperança no Brasil da fome de Bolsonaro

Abraço entre pessoas com máscaras de proteção ao coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), em Brasília - Adriano Machado/Reuters
Abraço entre pessoas com máscaras de proteção ao coronavírus no Hospital Regional da Asa Norte (HRAN), em Brasília Imagem: Adriano Machado/Reuters
Maria Carolina Trevisan

Maria Carolina Trevisan é jornalista especializada na cobertura de direitos humanos, políticas públicas sociais e democracia. Foi repórter especial da Revista Brasileiros, colaborou para IstoÉ, Época, Folha de S. Paulo, Estadão, Trip e Marie Claire. Trabalhou em regiões de extrema pobreza por quase 10 anos e estuda desigualdades raciais há oito anos. Coordena a área de comunicação do projeto Memória Massacre Carandiru e é pesquisadora da Associação Nacional de Direitos Humanos, Pesquisa e Pós Graduação. É coordenadora de projetos da Andi - Comunicação e Direitos. Em 2015, recebeu o diploma de Jornalista Amiga da Criança por sua trajetória com os direitos da infância.

Colunista do UOL

16/10/2020 04h00

O mesmo tempo que nos traz conforto carrega incertezas. Os meses de pandemia funcionam polarizando sentimentos, assim como na política. Com o passar dos dias, ora desanuviamos o que parecia embaralhado e nos descobrimos, ora mergulhamos na escuridão e nos perdemos. É assim porque a alternância entre a vida e a morte —ou, de outro ângulo, entre o amor e o ódio— passa na TV, no jornal, na rede social e no zap de todos nós.

Tenho tentado, nesta coluna, perseguir o meu dever de jornalista de denunciar violações, acompanhar políticas públicas e agendar no debate público o que muitas vezes é invisível. Como são temas duros, procuro fazer o exercício de deixar uma saída ou escrever com a delicadeza que o respeito ao sofrimento exige. Às vezes, é difícil. Porque, às vezes, eu perco a esperança. São tempos ríspidos.

Essa sensação dura pouco. Tenho a sorte de ter nascido otimista. Ao longo da vida, aprendi a enxergar a beleza das coisas, também em períodos sombrios. Este texto está sendo escrito sob essa batuta: compartilhar as gentilezas escondidas.

Conversava outro dia com meu pai, a figura mais otimista e persistente que eu conheço, e ele se queixava. Com razão. Dizia não entender como fomos deixar a fome voltar ao Brasil. Como?

O medo dele certamente o remete à infância pobre e difícil. Meu tio João Silvério Trevisan, seu irmão mais velho, conta, em seu livro "Pai, pai" (Editora Alfaguara), que meu avô José, primeiro padeiro e depois pedreiro, vivia "desesperado". Por isso se tornou alcoólatra. O sofrimento era insuportável. "Ele foi um homem desesperado, pois a vida dele não tinha saída. É muito sofrido alguém viver desesperado." Meus tios dizem que meu avô não resistiu ao descaso. O Brasil vive agora um descaso, o abandono, é um lugar sem futuro, sem plano para nos livrar da fome.

Procurei confortar meu pai. Meu coração aperta quando o dele aperta. Vi que era a minha vez de achar a brecha que poderia acalmar seu sofrimento. A dor da fome, essa humilhação dilacerante de não ter o que dar de comer a um filho, essa não tem calmante. Pelo lado da sociedade, requer compaixão, dividir e tudo o que estiver ao alcance de cada um. Pelo lado do Estado, o mínimo que se espera é que garanta que ninguém passe fome. Não há discussão, não há dois lados para essa questão.

Agora, em 2020, não partimos de um país desmilinguido, apesar dos inúmeros retrocessos. Nós já sabemos combater a fome, construímos os mecanismos que permitem erradicá-la, temos tecnologia social para fazer chegar as políticas que protegem os mais vulneráveis, como o Bolsa Família, somos reconhecidos mundialmente por isso. Tem países no mundo que se espelham em nós nessa área. A defesa da democracia, pilar primordial do jornalismo, compromete governos a atuarem nesse sentido. Assim como obriga eleitores a escolherem candidatos que prezem por essa proteção.

A pandemia trouxe novos métodos e modos de organização financiados pela sociedade civil, por indivíduos. Há muita riqueza nas comunidades e periferias brasileiras. Sempre houve. E uma força descomunal. Essa é uma beleza nossa, brasileira, fincada na nossa estrutura. Precisamos impulsionar essa força e recuperar os abraços interrompidos.

Tio João escreveu que meu avô viveu desesperado porque estava "depauperado de toda a esperança". Em profundo exercício de amor e saudade, perdoou o pai e descobriu que esse pai vive nele mesmo, o constitui.

"Pai, que me ensinou tantas coisas em sua suposta ignorância.
Pai, que me compeliu a procurar na misericórdia a artéria central do coração humano.
Pai, que me fez buscar o amor como um desgraçado em busca de salvação.
Pai, a quem prometo perseguir o perdão como fio condutor da minha redenção.
Pai, não há perdão que não seja mútuo.
Peço teu perdão, meu pai."

Beleza e tristeza caminham juntos. Mas a beleza é profundamente triste quando se está sozinho. O que nos mantém bem e firmes é a capacidade de sentir e trocar afeto. Compartilhemos a beleza para encontrar esperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL