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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Minha vida com 'chico', uma história de sangue, suor e lágrimas

"As cólicas já não dão mais as caras com a mesma frequência nem intensidade. O fluxo agora deságua em copinhos temperamentais" - Getty Images/iStockphoto
"As cólicas já não dão mais as caras com a mesma frequência nem intensidade. O fluxo agora deságua em copinhos temperamentais" Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

10/05/2022 04h00

Conhece o chico? Um tempo atrás, a gente chamava o período menstrual de chico. "E aí, teu chico veio?", "não me enche, que tô de chico". Futuramente, podemos desdobrar as nojentas razões por trás da expressão. Hoje o papo é outro, pois tamo vibrando na nostalgia. Aos 47 anos, minha relação com esse sangue mensal está prestes a entrar numa outra fase. E olha que já tivemos muitas!

Lembro quando ele apareceu em 1989. Nessa época, o termo "educação menstrual" não estava nem perto de ser usado. Fiquei pensando aqui, e talvez tenham abordado ligeiramente na mixuruca Educação Sexual dada à época. Minha mãe, uma mulher simples, trabalhava por mais horas do que deveria ser permitido e não lembro desse assunto na pauta. E pai? Bem, esse é outro assunto. Para resumir, deixo a palavra ausência presente.

O fato é que a primeira experiência com o chico foi bem intensa. Dona de um fluxo comparável ao das Cataratas do Niágara, por algum tempo, tive que lidar com isso com "toalhinhas" e não com absorventes. O dinheiro não era suficiente para bancar Modess.

Hoje isso tem nome: pobreza menstrual. Ambientalmente, eu tava arrasando. Mas lidar com aquela novidade, naquela intensidade, com a ajuda de toalhinhas, foi bem foda.

Lembro que jogava vôlei na época. Já era até federada. Em um dos primeiros jogos importantes interclubes, adivinha quem veio me visitar? Sim, o chico. Imagina a desenvoltura, destreza e confiança de uma mina de 14 anos, com uma toalhinha entre as pernas, acompanhada de cólicas lancinantes? A cada salto, sentia toda a pujança niagariana do chico. Fui me fechando, com movimentos mais contidos e lentos.

O técnico, daqueles clássicos que acredita que ofender e gritar podem ser métodos eficazes de motivação, já estava pela hora da morte. Só não me disse todas as ofensas que conhecia porque estávamos fora do nosso clube. Sim, porque lá ele dizia. Por motivos de ética e elegância, omito o nome do clube e do estrume.

Assim começa minha relação com chico e termina a minha carreira no vôlei.

Depois disso, tivemos muitos momentos emocionantes. As cólicas mortais, ah, as cólicas mortais. Só quem sentiu tá ligada no que tô falando. A sensação do útero sendo torcido. As paredes do endométrio desmoronando, enquanto arrastam sangue e dor.

Então, o sexo entra em ação. E, quando entra, muitas e muitas vezes foi sem a devida proteção. A alegria que era encontrar a calcinha suja de sangue! "Chico, seu lindo! Que bom que você veio!"

Fora todas as sensações, suspensão do tempo, dúvidas, mudanças e coração batendo fora do corpo nas históricas vezes que ele não veio.

E assim temos vivido. Uma relação que começou mal e vai arrefecendo, acalmando. As cólicas já não dão mais as caras com a mesma frequência, nem intensidade. O fluxo, que passou por fases e já foi resgatado por tampões, absorventes ultrafinos e modernos, agora deságua em copinhos temperamentais. Justo neste momento em que somos íntimos (inclusive no sexo --assunto pra outra coluna, amoras), me ponho a perguntar: "Por quanto tempo você ainda virá?" e "quando não vier mais, como vai ser isso? O que vai rolar com esse corpo?".

Que vida louca essa nossa, né, chico?