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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Apelido, diminutivo: o que tem por trás da intimidade forçada do brasileiro

Nossa civilidade é tamanha que não nos envergonhamos em largar o carrinho de compras no meio do corredor  - Getty Images/iStockphoto
Nossa civilidade é tamanha que não nos envergonhamos em largar o carrinho de compras no meio do corredor Imagem: Getty Images/iStockphoto
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

03/05/2022 04h00

Certa vez, lendo um e-mail no qual eu tava copiada, percebi que a leitura me tomou mais tempo do que o necessário para que eu entendesse do que se tratava. O assunto até que era familiar, eu tava entendendo razoavelmente bem o contexto —ações novas, associadas a um projeto que tava rolando, ou seja, fazia algum sentido, não parecia um engano total de destinatário. De todo modo, eu precisava saber quem tinha me mandando aquele e-mail, para, inclusive, endereçar minhas dúvidas e sugestões de maneira apropriada e mais assertiva.

Quando busquei pelo remetente, tudo se tornou meio opaco: "Nine". Nine... Quem seria Nine? De que departamento? A assinatura do e-mail não vinha com nome e sobrenome, nem mencionava o setor no qual a pessoa trabalhava. Apenas "Nine". Como era uma funcionária nova, o endereço de e-mail também não me ajudou com a solução do mistério. No mundo corporativo, muitas vezes a gente se transforma em f.gomes, j.silva, g.andrade... E aí é quase impossível associar nome de usuário e rosto.

Na sequência, pensei em inglês, porque, né, somos quase americanos puros. Não latino-americanos, só americanos mesmo. Nine = nove... "Quem poderia ser o número 9 e por que essa charada?" Deve ser alguma ação atrelada à serie "Stranger Things", imaginei. Lá tem a Eleven, aqui temos a Nine.

Perguntei, por fim, a um coleguinha de baia, que, num misto de surpresa e graça, me respondeu: "É a Jonine, a menina nova do Departamento tal. Ela quer ser chamada de Nine".

"O quê?" Mano, tudo bem a pessoa preferir ser chamada por outro nome. Mas assim? Sem possibilidades de associação -sem sobrenome nem setor atrelado?

Lembrei de outro caso. Tinha a Laís. Um nome de quatro letras. Mas algumas pessoas achavam demais e preferiam chamá-la de "Lá". Lá onde? Desdobre a ideia agora para "Ju". Geralmente tem mais de uma onde quer que você vá. "Qual Ju? A Souza ou a Domingues? A Juliana, a Juliane, a Julia ou a Jussara?". Se a ideia era facilitar, tome ponto negativo.

Meu nome é Fabiana, e diversas pessoas me chamam de Fabi. Eu mesma me autorrefiro como Fabi muitas vezes. Acho bom, sonoro, simples —duas sílabas, vogais que arredondam. Mas, se vou assinar qualquer coisa, ponho o sobrenome depois. Afinal, as pessoas precisam saber de que Fabi se trata. Não raro, pessoas com as quais não tenho nenhuma intimidade lançam um "Fabizinha". Tenho 1,80m e não sou essa anja repleta de candura, que enseje um diminutivo gratuito assim... Para além disso, tô falando de situações profissionais. Nesse ponto, já podemos notar que nem se trata de uma questão econômica, já que Fabizinha demora mais pra falar e escrever.

Trata-se de uma referência carinhosa. Hmmm... Tô ligada que isso é muito comum e natural aqui no nosso Brasilzão. Que tô sendo chatinha e iludida, primeiro por implicar, segundo pela ilusão de que uma coisa assim seja passível de mudança. Como questionar, ponderar e entender lentamente é sempre um bom exercício para evitar equívocos e excessos de si, pergunto: o que pode estar por trás dessa camaradagem? Desse "carinho"?

Numa situação profissional, quando algo precisa ser tratado de modo objetivo, você vai pensar mais antes de falar qualquer coisa que possa ferir os sentimentos da Fê, Fezinha fofinha do Marketing. As interações te levam na direção dessa intimidade forçada e forjada. Algo curioso, que vai meio no sentido contrário do modelo asséptico e da alta rentabilidade produtiva pregada e esperada dos "colaboradores".

A gente ainda precisa se haver com a "genteboíce" do brasileiro. Então, quando você deveria estar operando no modo imposto pela ritmo neoliberal —produção e eficácia total, a lenda da cordialidade brasileira se impõe (pra quem não tiver ligado nisso ou quiser saber mais, dá uma olhada no texto "O Homem Cordial", de Sergio Buarque de Holanda). Aí você se vê obrigado a operar entre algumas opções: de modo cínico, ser chamado de grosso ou pensar numa saída intrincada que te livre desses caminhos.

Nossa fofura e civilidade são tamanhas, que não nos envergonhamos nem um pouco em largar o carrinho de compras no meio do corredor, atrapalhando a passagem no supermercado. Não estamos nem aí ao usar a mochilona nas costas, como melhor nos convier, sem lembrar que, se pah, pode ter gente ali atrás levando mochilada... O que dizer das bolsas e sacolas coladas ao corpo, que levam tudo e todos que possam estar no caminho. Quem nunca tomou uma "borsada" num corredor de busão ou avião? Se ao menos viesse com um "desculpa, Fa", vá lá. Mas esse é o limite da "boa gente" ou da "intimidade fácil". A lapada no ombro vem com o mais profundo desconhecimento da cordialidade. Ou seria melhor dizer que vem com um não se importar o mínimo com a presença do outro?