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Fabi Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Diz a lenda que brasileiro é um povo amável. Será que somos mesmo?

Observe o comportamento amoroso no trânsito, a tolerância. É bonito de ver e ouvir a sinfonia das buzinas alucinadas, com toda sorte de xingamentos e ameaças - Chris Ryan/ iStock
Observe o comportamento amoroso no trânsito, a tolerância. É bonito de ver e ouvir a sinfonia das buzinas alucinadas, com toda sorte de xingamentos e ameaças Imagem: Chris Ryan/ iStock
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Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

03/12/2021 04h00

Sim, me ufano do meu país, sim. De toda pujança da biodiversidade e riqueza cultural nacionais. Mas, às vezes, eu "desufano".

Reza a lenda que somos um povo festeiro, amoroso e acolhedor. Mas será que somos sempre assim? Ou só em ocasiões festivas? Porque, cá entre nós, no dia a dia mesmo, que é quando a vida se faz e se dá, estamos mais para o estilão "Jogos Vorazes". "Ah, imagina, Fabi, brasileiro é um povo gente boa…" Se pá, com estrangeiros colonizadores. Mas, com os colonizados e com os seus, não sei se concordo muito com essa teoria. É complexo de vira-latas que chama? Identificação com o opressor? Síndrome de Estocolmo?

Talvez exista um tipo de brasileiro que seja mesmo gentil e civilizado. Mas, nas metrópoles, as cenas mais frequentes são de gente querendo arrancar cabeças de outras gentes.

Peraí, deixa eu fazer um aparte. Temos, por exemplo, a relação humanos-pets (eles não são mais animais, tiveram upgrade, assim mesmo, em inglês). O pet é cuidado com todo amor e carinho, com gastos que vão para uma base de 300 contos por semana. Isso se ele não precisar de um psicólogo ou alguma terapia alternativa, fazer uma constelação familiar animal ou ler um tarô. "Mas, Fabi, os animais são muito melhores que os humanos", disse o humano… Entendi. Então, é por isso.

Voltemos para a relação humano-humano nas ruas e locais públicos.

Observe o comportamento amoroso no trânsito, a tolerância. É bonito de ver e ouvir a sinfonia das buzinas alucinadas, com toda sorte de xingamentos e ameaças. Enxovalhos, intolerância e ameaças são as mais novas formas de demonstrar esse comportamento gentil, pacato e amoroso do brasileiro.

São lindas cenas de amor. Um gentilmente oferecendo passagem ao outro, com olhos brilhantes e um sorriso estampado na cara. Quanta civilidade!

Ops, nem deveria estar falando em civilidade. Isso estaria mais numa esfera formal, das boas maneiras e do bom convívio coletivo. E a gente é um povo tão informal, né? Detestamos essas regras e formalismos. Somos o exemplo vivo do humano amoroso com seu próximo.

E o que dizer das relações no supermercado, então?

Que linda amostragem de delicadezas. Quanta paz dá no coração, ao deslizar o carrinho (vazio —inflação batendo quase 10%) pelos corredores. Todos pensam nos arredores e nos outros humanos presentes ali. Não atravancam a passagem entre as prateleiras e portas. E como tratam bem os funcionários, não é? Quanta simpatia brasileira!

E, quando entram no transporte público, busão, Uber, táxi… Sempre cumprimentam e agradecem a viagem. Olham nos olhos do prestador de serviço, sem tratá-los como meros objetos, assim como fazem ao entrar no prédio ao esbarrar com o porteiro, ou quando encontram a faxineira espanando os móveis do escritório.

Realmente, não entendo essa galera que fica criticando um povo tão gente boa como o brasileiro!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL