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Fabi Gomes

"A moça da foto, me faça igual a ela": a impossível missão de um maquiador

Getty Images
Imagem: Getty Images
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista de Universa

06/01/2021 04h00

Se eu tivesse que eleger a característica mais importante para uma pessoa que executa maquiagem, seria a da adaptação.

Em alguns treinamentos, usamos referências de imagens, as quais os participantes precisam reproduzir em suas modelos. Dessa forma, é possível partir de algo concreto do mundo das imagens, ao invés de algo meramente descritivo que, nesse caso, daria muito espaço para interpretações pessoais.

Assim, inicia-se uma troca de ideias e percepções pautadas em parâmetros específicos, como intensidade de cor, simetria, acabamento e adaptação. Pra quem já tá pensando "nossa, que bagulho normativo e castrador", calma, respira.

Na maquiagem, é importante aprender a construir, para depois desconstruir e deixar fluir as ideias, a criatividade, o tal do lance autoral - o mais excitante e desafiador na minha opinião. E aqui estamos falando de um treinamento básico, as bases do rolê.

Pensando assim, a adaptação é talvez o critério mais importante e desafiador. Me explico: as pessoas têm caras diferentes, com diferentes proporções, volumes e cores. Trata-se de tarefa impossível querer fazer "Control+C" e "Control+V" com referências, sejam em foto, vídeo ou mesmo pessoalmente.

Quando se trata de uma imagem impressa, os desafios vêm multiplicados. Talvez o maior e mais relevante seja a referência ser outra pessoa, com outra compleição física. Só um "detalhe", né?

Aí entra outro, que é o do entendimento das proporções, além da questão da percepção das medidas. E isso sem falar de produto. Com uma foto na mão, você não vai saber exatamente qual paleta de sombras ou qual batom foi usado. É possível identificar semelhantes, mas, sem uma lista de produtos usados, fica difícil.

Em seguida, partimos pras questões das condições de luz e tratamento de imagem, que alteram substancialmente o resultado final. E, bom, quem trabalha com isso, sabe muito bem de quanta luz, tratamento e manipulação estamos falando...

Qual profissional de beleza nunca passou pela delicada saia justa de tentar explicar para a cliente que aquela make babadeira da capa da revista talvez não fique exatamente igual nela?

Já precisei sambar pra tentar explicar para equipes inteiras de marcas que aquela maquiagem da "réfi" (como gostam de falar na moda) não ficaria exatamente igual EM TODAS as 36 modelos do casting. E que, talvez, fosse muito mais interessante criar algo especial para o desfile, partindo daquela referência, e não necessariamente FAZENDO IGUAL.

No caso da maquiagem social - aquela que a gente faz quando quer ficar bem linda pra se expor na sociedhady, acho que temos ainda mais questões a serem observadas. A pessoa te traz uma ilusão produzida, em busca de um sonho.

Bem desafiador e cheinho de símbolos, hein? Bem, a você cabe o desagradável papel de:

  1. Deixar claro que haverá diferenças no resultado final;
  2. Tentar reproduzir e conquistar uma desavença, já que a expectativa não será alcançada.

Ah, Fabi, mas tem maquiadores que conseguem fazer muito parecido. Sim, sim, há profissionais hábeis e capazes de reproduzir a referência com tanta destreza e vender o resultado com estratégias de marketing tão avançadas, que a fofa levanta da cadeira se sentindo a própria "réfi". Mas nunca vai ficar exatamente igual, acredite, pois pessoas diferentes, realidades diferentes, logo, resultados distintos.

Acho lindo isso enquanto recurso para realizar fantasias e tals. "Hoje quero ser perigosona, quero chegar toda Gilda no rolê", "Ah, tô tão meiga hoje, fofa mesmo, quero ir de bonequinha de luxo...", "Vou chegar vamp na janta, tenho umas verdades a serem ditas".

A grande questão é: e quando todas as vezes a mulher sai transformada da cadeira da beleza? Aliás, taí uma expressão que as pessoas curtem muito enaltecer - o poder transformador da make. Não o poder transformador da descoberta da sua beleza, mas sim o poder transformador da anulação da sua suposta feiura e inadequação aos moldes, do apagamento dos seus traços naturais.

Ah tá, então a gente nunca usa referência? Quando a cliente chegar com uma foto em mãos, você já joga no chão, taca pólvora, acende um fósforo e dá sete voltas ao redor da foto gritando "nuuunnnca"?

Melhor não. Talvez fosse o caso de entender as razões pelas quais ela se encantou pela imagem. Entender o que é possível adaptar e como fazer essa união, pensando em valorizar, revelar e validar a beleza da mulher que tá ali na sua frente. Para tanto, é necessário, em primeiro lugar, ouvir, entender, acolher, explicar as limitações técnicas e, então, oferecer possibilidades e propor alternativas.

Não adianta fazer bracinho de xícara e falar pra ela, com olho branco, sobre como aquela tarefa seria impossível. Uma amiga asiática me disse que foi muito animada ao salão com uma referência de um cabelo que tava interessada, que tinha achado bonito. Ao que o cabeleireiro, muito entediado e com zero carisma, lhe respondeu, tocando com desdém no cabelo dela: "Impossível, querida. Você é japonesa e teu cabelo é ralo, nunca vai ficar como o da foto".

Ou seja, como quase tudo na vida, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Bom seria todos estarmos mais presentes, carinhosos e propensos a fazer o que pode ser feito. E não tô falando apenas dos profissionais de beleza. Acho que isso vale pra geral, né não?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.