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Fabi Gomes

Por que não escolhemos roupas livremente e o que homens têm a ver com isso?

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Imagem: iStock
Fabiana Gomes

Fabi Gomes é maquiadora e bonne vivante ? gosta de das coisas boas da vida, como artes, literatura, sexo, cinema, culinária, viagens. Está sempre atenta ao poder transformador e aos rumos da beleza.

Colunista do UOL

09/12/2020 04h00

Como você se prepara pra sair de casa? Pensa num "lookinho" e tals? Quais teus critérios? Escolhe livremente, pensando apenas na ocasião e no clima?

"Nossa, meus bródi vão tá lá no churrasco, vou pôr essa regata loka, uma bermuda bem confortavelzona e aquele tenão daora pra gente curtir. Putz, tempo virou, véio... Tá meio friozinho, se pah vou colocar aquele moletom."

Pois é, amado, que delícia, quanta liberdade. Aí tem um lance que eu queria te contar. Só contar mesmo, te trazer nesse rolê das ideias, já que viver na pele, sentir a emoção, isso já não seria possível, pois você não é uma garota.

Pra uma mina, é um pouco diferente. Escolhemos roupas de acordo com cada ocasião, é claro. Mas daí rola o seguinte: 37 graus, sensação térmica de 40. Você sente o suor escorrendo pelas costas. Precisa ir ao mercado comprar a mistura e pensa: "o calor tá de matar, mano! Vou colocar uma blusinha e uns shorts. Putz, mas tô ligada que no caminho vou ter que escutar gracejos e obscenidades, sem contar os olhares invasivos".

Quando digo gracejos, tô sendo elegante. Muitas vezes, o que a gente escuta é baixaria mesmo! Nível pornô "hard", com descrições detalhadas do que gostariam de fazer e tals. Infelizmente, o espaço não me permite esse grau de detalhamento e explicitação.

Mas você sempre pode perguntar às mulheres à sua volta —sua mãe, irmã, amiga, namorada. Normalmente não falamos porque sentimos vergonha. Sim, a gente acaba se sentindo envergonhada e, de alguma forma, responsável por aquele comportamento dos caras. Pois é, aí nos sentimos mal duas vezes. Três, né? Já que tem o lance de não falar também.

Nos sentimos mal por não poder escolher roupas livremente, baseadas apenas na ocasião e no clima, por ter que ouvir baixarias de pessoas que não escolhemos, em situações que não ensejavam esse comportamento, e nos sentimos mal por calar. Raiva, dá muita raiva.

Por enquanto, eu tava pensando em situações diurnas, solzão escaldante. Pois é, agora imagina tudo isso à noite. Você, boy, pode andar relativamente de boas por aí, né? Pode até ter preocupações em relação à segurança, mas nunca em relação a ter seu corpo violado, a sentir teu corpo disponível.

Você, homem hétero, pode até se sentir desconfortável na própria pele, por razões individuais de cada um, mas dificilmente no que se refere à indumentária, roupas e estilo. Você põe o que quiser e usa como bem entender, sem precisar pensar na possível reação das pessoas. E, por enquanto, estamos na esfera da fala e dos olhares. Mas, às vezes, as pessoas partem pra ação. E aí temos a violação física, pra além do desconforto, raiva e violação moral. Estamos na esfera do crime, meu senhor. As outras ações também deveriam ser classificadas como crime, aliás. Afinal, espaço, corpo e mente das mulheres não estão à sua disposição nem de ninguém.

Importante fazer um aparte e mencionar também que há recortes raciais e de orientação sexual. Homens pretos não escolhem suas roupas e estilo livremente como os homens brancos. São ensinados desde cedo a andar com roupas limpas, arrumados e com documentos, para não serem vítimas de discriminação e violência. Homens gays precisam pensar se vale a pena mesmo enfrentar a rua com aquela jaqueta de paetê ou com o shortinho rasgado, sempre com medo de serem violentados física e psicologicamente.

Como o foco é falar das mulheres e do seu mundo de coisas, não quis entrar a fundo nesses outros cenários, que são muito sérios e merecem abordagem dedicada de quem possa falar sobre. Falo aqui do meu lugar de mina cis branca, sobre as coisas que sei e vivo nessa pele.

De volta à interação homem e mulher no dia a dia. Vamos pensar nos jobs, nos trabalhos, independentemente do ambiente: fábrica, pizzaria, escritório, estúdio, feira, mercado.

"Entenda, parte 1": em primeiro lugar, vocês estão ali para trabalhar, e só para trabalhar. Se, ainda assim, você decidir ignorar isso, "entenda, parte 2": se a mina não estiver te dando moral, nem indicações de interesse romântico e/ou erótico, não avance. Aliás, nesse contexto, havendo interesse mútuo, o ideal seria vocês resolverem as coisas fora do ambiente de trabalho, já que o objetivo ali é outro.

Agora, se a mulher não te deu nenhuma indicação de interesse, VAZE. E, nesse caso, já não importa onde estão —rua, balada, trabalho, mercado, show, trânsito. Se ela não está retribuindo suas investidas, respeite e deixe-a em paz. Não estamos numa feira livre de mulheres, não somos mercadoria à sua disposição. Isso deveria estar claro de uma vez por todas.

Voltando ao trabalho. Se você estiver numa posição de chefia ou liderança, ENTENDA que, fora todo turbilhão que já falamos aqui de raiva, vergonha e culpa, talvez a mulher ainda se sinta intimidada pela autoridade e pelo poder. Intimidada e com medo de perder a posição ou trabalho que tem. Talvez ela cale por não saber o que fazer ou até sorria sem graça, por não esperar tal situação e não ter ideia de como reagir.

PERCEBA: quando as pessoas estão interessadas umas nas outras, há olhares e troca. Se você ficou sozinho na dança, não tente conduzir. Saia da pista, querido. Respeite.

Quando vejo casos de assédio, fico me perguntando: "Esse cara é um monstro? Um criminoso perverso?" Bem, ele incorreu em crime. Mas, na cabecinha dele, ele só estava absolutamente confortável, fazendo o que foi ensinado e incentivado a fazer por gerações.

O caso mais recente de assédio, infelizmente é apenas mais um exemplo disso. Assédios morais e físicos contra mulheres acontecem diariamente, em todos os lugares. Perguntem às mulheres. TODAS têm um ou uma dúzia de casos para compartilhar.

Pois é, isso precisa parar. E os homens precisam ser educados e penalizados quando cometerem tais crimes. Talvez os homens feitos que ainda se sentem à vontade nesse papel só aprendam pela dor. Mas pais, mães e responsáveis por crianças podem e devem ensiná-los desde cedo. Meninos e meninas precisam saber que o corpo e vida do outro são um patrimônio sagrado daquela pessoa e que não pode ser tocado sem seu consentimento.