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Débora Miranda

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Luta entre homem e mulher pode mudar o esporte ou só reforçar preconceitos?

Anúncio da luta entre Gabi Garcia e Craig Jones - Reprodução
Anúncio da luta entre Gabi Garcia e Craig Jones Imagem: Reprodução
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

28/03/2021 08h08

O mundo do esporte recebeu com surpresa no último dia 19 a notícia de que a brasileira Gabi Garcia, nove vezes campeã mundial e um dos maiores fenômenos do jiu-jitsu, havia aceitado entrar no tatame para enfrentar o australiano Craig Jones.

A luta envolvendo atletas de gêneros diferentes é tão rara que a veracidade da notícia chegou a ser questionada. Tanto Gabi quanto Jones apareceram em suas redes sociais para confirmá-la e, ao que tudo indica, o combate vai mesmo acontecer. Está marcado para as 15h (horário de Brasília) de hoje e terá transmissão pela internet. Os dois prometem responder ao vivo todas as dúvidas sobre o evento.

Os lutadores se enfrentarão no que é conhecido no mundo do jiu-jitsu como um combate "sem pano", ou seja, sem quimono. Isso significa que a luta não é promovida por nenhuma federação de jiu-jitsu e que as regras são um pouco diferentes. Há golpes que não são permitidos pelas federações, mas nesses campeonatos —como o ADCC, que é um dos mais importantes— são. Entre eles está a chave de tornozelo, especialidade de Jones, que costuma ser vetada porque pode quebrar o joelho do adversário.

As regras da luta entre Gabi e o australiano são que não haverá tempo nem contagem de pontos. Vence quem finalizar o coleguinha. E Craig já afirmou que, se perder, vai se aposentar.

O clima de rivalidade irônica que vem sendo alimentado por ambos nas redes sociais faz lembrar o filme "A Guerra dos Sexos" (2017), que conta a história real da partida de tênis, ocorrida em 1973, entre a lenda Billie Jean King e Bobby Riggs, um ex-jogador machista e falastrão. Embora Gabi não demonstre ter o ativismo de King, a luta acabou mobilizando mulheres em apoio à campeã de jiu-jitsu. Ontem à noite ela afirmou ter recebido 17 mil mensagens falando sobre o confronto.

Billie Jean King e Bobby Riggs - Wikimedia Commons - Wikimedia Commons
Billie Jean King e Bobby Riggs
Imagem: Wikimedia Commons

Mas, para além de tudo isso, a discussão sobre homem e mulher disputando entre si uma mesma modalidade esportiva é bastante polêmica. As diferenças corporais —e aqui não me refiro a forma física, mas, sim, a características de cada gênero— normalmente são determinantes para que as categorias esportivas sejam divididas entre feminino e masculino (e isso, por si só, gera uma discussão imensa, especialmente no sentido de garantir diversidade no esporte, como a inclusão de atletas trans, por exemplo).

Mas, no caso da luta, tem ainda o debate em torno da violência que naturalmente faz parte desse tipo de esporte. O primeiro sentimento, pelo menos o meu, foi de incômodo por uma situação em que oficialmente um homem poderia bater em uma mulher. O enfrentamento contra a violência doméstica ainda é árduo, o número de feminicídios só cresce. Dói em todas nós.

Mas, no tatame, a mulher também pode (e deve!) agredir o homem —teoricamente em condições pelo menos mínimas de igualdade. Não é a violência do dia a dia, é esporte. Por mais incômodo que possa soar —e, para tantas pessoas, por mais injusto e desigual que possa parecer.

Acontece que o caso de Gabi é ainda mais inusitado porque ela tem uma força física estrondosa —que faz com que seja considerada quase imbatível entre suas adversárias mulheres. Ela é muito maior e mais pesada do que Jones. E muito mais campeã.

Não dá para saber se a luta terá um reflexo positivo na carreira de ambos. Muitas piadas machistas se espalharam ontem pela internet e é fato que, apesar das diferenças entre os esportes, a luta de hoje pode acabar representando uma nova "guerra dos sexos", como a que ocorreu no tênis. Uma eventual vitória de Gabi pode, sim, ter o efeito de empoderar mulheres, como aconteceu com King nos anos 1970.

Uma das milhares de mensagens recebidas por Gabi Garcia diz: "Boa sorte, todas as garotas estão contando com você" - Reprodução - Reprodução
Uma das milhares de mensagens recebidas por Gabi Garcia diz: "Boa sorte, todas as garotas estão contando com você"
Imagem: Reprodução

Mas que efeitos pode ter uma derrota? Talvez um reforço de estereótipos machistas —e muitos deles já assolam e conduzem o esporte todo santo dia.

Não tenho todas as respostas. E acho que neste caso é impossível tê-las; só o tempo vai mostrar de que forma essa improvável luta pode transformar o mundo das artes marciais. Embora Billie Jean King —e tantas outras atletas— tenha aberto muitas portas, as questões de gênero no esporte ainda são bastante rígidas e cercadas de preconceito. Qualquer passo no sentido da evolução pode ser positivo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL