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Débora Miranda

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Nem menino nem menina: conheça Itsa, que se descobriu dançando breaking

Itsa, que dança breaking - Fabio Piva/Divulgação
Itsa, que dança breaking Imagem: Fabio Piva/Divulgação
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

07/03/2021 04h00

Mas de onde vem o seu nome? Esta foi uma das primeiras questões que eu fiz a Itsa e uma das mais emblemáticas desta entrevista. "Vem de uma pergunta frequente que tenho na vida: it's a boy or it's a girl?", me responde, usando a versão em inglês de "é menino ou é menina?".

Itsa se considera uma pessoa não-binária, ou seja, alguém que não se identifica dentro do binarismo de gênero, como homem ou mulher. "Eu gosto de deixar isso claro para as pessoas", diz. Itsa conta que começou a pensar sobre o assunto ainda na adolescência, com 12 ou 13 anos, quando enfrentou também problemas na escola por causa de sua sexualidade.

A pedido de Itsa, portanto, este texto será escrito de uma forma diferente. Não utilizarei os pronomes femininos nem masculinos. A comunidade LGBT+ vem desenvolvendo uma comunicação que respeita as diversas identificações de gênero, e aqui farei o mesmo. Para mim é novidade, imagino que para a maior parte de vocês também. Então vou explicar antes para que todos possam compreender o que cada termo significa.

Que fique claro: não sou especialista e posso cometer erros. Se acontecer, já peço desculpas. Li a respeito e me informei, usando como referência inclusive esse post que Itsa me enviou depois que conversamos:

A ideia é, em vez de ele ou ela, usar elu. Em vez de dele ou dela, delu. Nos termos terminados em A ou O, usamos E. Todos ou todas viram todes.

Vamos lá?

Itsa é craque no breaking, aquela dança cheia de acrobacias que faz parte do movimento hip-hop. O breaking —que também pode ser chamado de break dance— deve virar esporte olímpico em 2024, nos Jogos de Paris. Para além da discussão que os mais puristas podem propor a respeito da inclusão dessa modalidade nas Olimpíadas, é fato que abrirá mais uma porta para que jovens periféricos sejam incluídos nas oportunidades que o esporte dá de transformação.

Mas nem foi preciso chegar às Olimpíadas —o que, claro, ainda pode acontecer— para que Itsa tivesse sua vida transformada pelo breaking. Elu tem 22 anos, nasceu em Belo Horizonte e cresceu numa favela da capital mineira. Foi por meio do primo, que morava na casa ao lado da sua, que conheceu o breaking.

"Eu via ele treinar e comecei a pedir para ir junto. Ele passou a me levar nos centros culturais. Comecei a participar de festivais, de eventos. Depois entrei em projetos sociais e fui buscando a profissionalização", lembra.

Itsa preencheu na dança o espaço que a escola não conseguiu ocupar em sua vida. Estudou até o nono ano, quando começou a ter problemas. "Quando eu estava com 13 ou 14 anos, minha sexualidade começou a aflorar. A coordenadora da escola chamou a minha mãe para me retirar da escola, dizendo que eu era mau exemplo para os outros alunos."

Decidiu, então, dedicar-se à dança.

O breaking foi a escola que eu não tive. Não vi um lugar mais rico e de mais troca do que um ambiente de treino, os eventos, as batalhas. Esses espaços me levaram a conhecer pessoas mais ativistas, a real mensagem LGBT e do hip-hop, que virou a minha comunidade.

Os pais evangélicos levaram um tempo para aceitar Itsa, mas logo entenderam: "O meu caráter importa mais do que tudo isso", destaca elu, que lembra de ter sido uma criança que aprontou demais, sempre muito agitade.

Nessa mesma pegada, elu diz que o breaking começou "como uma molecagem". "O breaking é tão difícil, se você conseguir fazer o movimento acabou, pode ficar feliz." Itsa já fez aulas de várias outras modalidades, inclusive balé contemporâneo, e diz que ama a dança de forma geral. Mas sua vocação mesmo é o breaking.

Cirque du Soleil

A trajetória de Itsa fez com que elu chegasse ao Cirque du Soleil. "Fiz uma audição, mas levou mais de cinco meses para eles me chamarem. Fui para o Canadá, trabalhei primeiro com eles na concepção do show. Foi uma graduação, um intercâmbio artístico de que eu nunca vou esquecer. No espetáculo tinha mais de dez nacionalidades, aprendi novos idiomas e fiz conexão com pessoas do hip-hop de outras partes do mundo", lembra.

Itsa voltou ao Brasil por causa da pandemia do coronavírus, mas a ideia é retornar ao Canadá assim que as apresentações —elu fazia em média dez por semana— forem retomadas. "Lá aprendi essa disciplina de atleta, a importância do preparo físico, psicológico, espiritual, a cuidar da alimentação, dormir bem, relaxar. E que me divertir é importante também."

Olimpíada

A notícia de que o breaking viraria esporte olímpico surpreendeu todo o movimento hip-hop e vem gerando muitas discussões de como isso pode afetar a comunidade, política, social e educacionalmente.

"O b-boy Neguin [outro destaque da dança] fala: não é o breaking que precisa da Olimpíada, mas a Olimpíada que precisa do breaking. Como cultura, ele nunca vai deixar de existir. Meu papel e da nova geração é não deixar a dança morrer nem simplesmente ser uma modalidade olímpica. O breaking é um patrimônio histórico e cultural. Estamos construindo algo novo. A gente já conhece muito bem o mundo da cultura, agora estamos conhecendo o mundo do esporte", explica Itsa.

Itsa espera que o breaking não perca suas características de cultura de rua - Divulgação - Divulgação
Itsa espera que o breaking não perca suas características de cultura de rua
Imagem: Divulgação

Para quem não sabe como funciona, o breaking é uma modalidade de batalha, uma roda de dança. As disputas podem ser individuais ou em grupos. O DJ solta uma música, e o dançarino —com base no improviso, mas também em muito treino—, mostra suas habilidades na pista. "São avaliadas atitude, disciplina, criatividade e musicalidade", explica Itsa. Uma banca de jurados decide quem vence.

Para virar um esporte, é preciso algumas mudanças, como a criação de federações e a promoção de eventos que serão responsáveis pela criação de rankings com pontuação. A partir disso, haverá a definição de que atletas vão representar cada país.

Itsa já venceu eventos importantes —elu destaca a Red Bull BC One Camp São Paulo, em 2019, que dava vaga para representar o Brasil no mundial em Mumbai, na Índia. "Foi quase uma utopia tanta gente famosa do breaking na minha frente. Pressão muito grande representar meu país. Mas sabia que estava lá para aprender, não para ganhar."

O essencial para elu, agora, é que o breaking não perca sua essência de cultura de rua. "É uma modalidade de dança raiz da cultura hip-hop. Tem um poder infinito de curar pessoas oprimidas, é uma cultura inclusiva. Eu não senti que tinha espaço na escola, mas senti que tinha no breaking. Federação não vale mais do que crew [grupos de dança]. Isso não pode ser desvalorizado."