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Débora Miranda

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Mari Becker, a craque da F1: 'Ídolo não se faz só na conquista de medalhas'

A jornalista Mariana Becker - Divulgação
A jornalista Mariana Becker Imagem: Divulgação
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

28/02/2021 04h00

Mariana Becker ama esportes. Isso é fato. Pouco mais de uma hora de conversa é suficiente para descobrir que ela já viajou o mundo para surfar, fez balé e jogou handebol na infância, lutou kenpo e capoeira, veleja e já se quebrou toda esquiando. "Uma das únicas frustrações é não ter feito esgrima. Adoraria fazer."

Além de tudo isso, Mariana manja muito de Fórmula 1. Ela é a repórter que o brasileiro está acostumado a ver aos domingos na TV Globo, com informações sobre o esporte e bastidores das corridas. Aliás, estava acostumado. A emissora decidiu não mais transmitir as provas, mas a Band adquiriu os direitos e também contratou a jornalista, que estreará na nova casa em 28 de março, no Grande Prêmio de Bahrein.

"Após a minha saída, o sentimento que fica pela Globo é de respeito pelo trabalho e pelos meus colegas, com quem aprendi tudo o que sei. Estou feliz por poder continuar nesse caminho da F1. Os dois lados estavam animados com a ideia de trabalhar juntos, e acho que vai ser um desafio bom."

Em entrevista ao Extraordinárias, Mariana fala sobre a adolescência surfista, sobre como o esporte a levou ao jornalismo, sobre a conquista de espaço na F1 e o machismo no esporte. E revela: não tem muitos ídolos.

"Admiro as mulheres que conquistaram muitas coisas nadando contra a maré e mantiveram a dignidade acima de tudo. A Aída dos Santos [atleta do salto em altura], por exemplo. Ela não tinha uniforme quando foi fazer o desfile, na cerimônia de abertura da Olimpíada. Não tinha sapatilha para saltar. Ela saiu da favela para ir para Tóquio, em 1964. Para mim os ídolos não se fazem só na conquista de medalhas."

Leia, abaixo, trechos da entrevista.

*

Balé x esportes violentos

"O esporte na minha casa sempre foi muito natural. Os meus pais jogavam tênis, a minha mãe jogou vôlei, e os dois pegavam onda, isso na década de 50. As minhas três irmãs mais velhas eram nadadoras da equipe brasileira, meu irmão jogava basquete. E eu sempre gostei. Comecei fazendo balé, mas o problema para mim era a rigidez. Não combinava com a minha personalidade. Uma hora me enchi e resolvi fazer esportes que eu brinco que são 'esportes violentos'. Mais livres. Comecei a surfar com 13, 14 anos. Eu adorava poesia do surfe da década de 1980. Não era só um esporte. Tinha um troço com a independência, com viajar, com liberdade."

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A escolha do jornalismo pelo esporte

"Foi o esporte que me levou para o jornalismo. Antes de entrar na faculdade, eu já escrevia sobre esporte. Na adolescência, eu tinha um preconceito bobo que eu não queria ser a gatinha que ficava na praia olhando os homens surfar. Eu queria fazer alguma coisa, então comecei a escrever sobre mulheres que faziam coisas que eu também gostaria de fazer no esporte. Eram mulheres que me estimulavam, me encantavam, porque elas tinham feito muitas coisas que eu gostaria de fazer, mas ainda tinha pouca gente fazendo."

Afônica de tão nervosa

"Quando eu estava me formando, o Telmo Zanini, que era chefe de redação da Globo, me viu trabalhando na Bandeirantes, me ligou e falou para eu ir conhecer a TV no Rio. Fui, fiz um teste, eles gostaram e disseram para eu ir fazer um tempo de estágio. No fim, nem rolou o estágio. Já me colocaram para cobrir um repórter que estaria fora por três meses. Eu fiquei afônica, de tão nervosa. Na minha primeira matéria, estou totalmente rouca e desafinada."

Mariana fechou com a Band para participar da transmissão da F1 no canal - Divulgação - Divulgação
Mariana fechou com a Band para participar da transmissão da F1 no canal
Imagem: Divulgação

Sem fanatismo nem ídolos

"Não tenho fanatismo por nada, por nenhum esporte. Eu gosto. Mas fanática eu não sou. E isso talvez me ajuda em alguns aspectos, porque acabo sendo mais objetiva. Também não tenho muitos ídolos, para falar a verdade. Eu admiro essas mulheres que conquistaram muitas coisas nadando contra a maré. A Aída dos Santos [atleta do salto em altura], por exemplo. Ela não tinha uniforme quando foi fazer o desfile, na cerimônia de abertura da Olimpíada. Não tinha sapatilha para saltar. Ela saiu da favela para ir para Tóquio, em 1964. Para mim os ídolos não se fazem só na conquista de medalhas. Claro que também, porque ali é que eles aparecem para o mundo. Mas admiro mesmo o que a mulher foi capaz de sobrepor para realizar o que ela gosta."

A chegada à Fórmula 1

"Eu sempre tive uma tendência a fazer esportes radicais, mas, na época em que eu comecei a trabalhar na Globo, os esportes radicais não eram bem vistos. O jornalista bom sabia fazer futebol, o resto vinha depois. Até que um dia fui fazer Rally dos Sertões. Queria mostrar como era por dentro, correndo. Eu achava que a gente via o automobilismo muito de fora e com pouca emoção. Então eu corri, e corri para valer.

E aí que eu saquei qual era a grande emoção do automobilismo. A coisa de estar eternamente no seu limite, o quanto você pode fazer aquele carro ser uma continuação de você, a sensibilidade, a sutileza. É um troço maravilhoso.

Corri três anos e aí comecei a conviver com mais gente do automobilismo. Passei a conversar mais, a entender mais, e a me encantar mais. Até que a Globo achou que seria legal testar uma mulher na cobertura da Fórmula 1 e veio falar comigo. Quero! Mas depois que eu topei, eu vi o tamanho do abacaxi que eu tinha que descascar. Mas achei o máximo e descasquei bem descascadinho."

Assunto masculino

"Eu tive que estudar muito, aprender técnica e tecnologia. Precisei amadurecer também, porque no início ficava muito preocupada em responder à altura das expectativas e ficava voltada ao que os outros estavam achando de mim. Nunca era o suficiente. Eu me exigia de uma maneira monstruosa e, a cada pequeno erro, me martirizava. Então, o começo para mim foi muito difícil. Eu tinha que falar de um assunto que, até então, publicamente, era um assunto só masculino. Com relação ao público e aos meus colegas também foi complicado, porque eu precisava mostrar que eu sabia do que eu estava falando. Depois, aos poucos, eu fui mudando. Queria curtir também. Estou aqui, na vida e na minha profissão, para fazer o que eu gosto."

Respeito dos pilotos

"Os pilotos sempre me trataram com muito respeito, nunca teve assédio nem grosseria pelo fato de eu ser mulher. A relação com os pilotos se dá não muito pela questão de mulher e homem, mas por eles me conhecerem e me respeitarem como jornalista. É um meio que demora para você estabelecer uma relação de confiança.

Por isso me irrita profundamente quando alguém questiona minha relação com os profissionais de Fórmula 1 achando que eles falam comigo porque sou loira ou bonita. Isso é desmerecer a minha capacidade de fazer contatos, o meu respeito e uma coisa que é importantíssima na Fórmula 1 que é conseguir estabelecer relacionamento com as fontes.

Isso leva anos, custa, é difícil. Você tem que estudar muito, tem que ser uma pessoa muito direta, correta, constante."

Marido e produtor

"O Jayme [Brito] trabalha não só como produtor in loco, mas também como produtor de conteúdo e de logística. Ele é um produtor das antigas, completo. E ajudava na relação da Globo com a Fórmula 1, está há mais de 30 anos nisso. Quando foi dispensado [após a emissora decidir não mais transmitir as corridas], ele passou a ser o conselheiro da Fórmula 1 para possíveis negócios de transmissão de TV no Brasil e, aí, passou a intermediar o contato com outras TVs [agora fechado com a Band].

Por um lado é ruim trabalharmos juntos, no sentido de que o profissional fica muito atrelado à nossa vida íntima, dentro de casa. Quando um está mal, isso tem eco no outro lado também. Nós dois ficamos na mesma situação, sem contrato com a Globo e buscando um futuro.

Eu já li gente falando que o Jayme estava na Fórmula 1 por minha causa e que eu estava por causa dele. Acho tudo isso muito chato, não vou dizer que não me incomoda. E eu, durante muito tempo, não ficava dizendo para todo o mundo que eu era casada com ele. Não que eu escondesse, mas no ambiente de Fórmula 1 eu dizia 'o Jayme, meu produtor'. Porque para mim, a ideia de ter o meu início na Fórmula 1 marcado como 'essa aqui é a mulher do Jayme' era inconcebível. Então, foi a saída que eu encontrei. Eu sempre fui a Mariana Becker, repórter da TV Globo. Ponto."