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Débora Miranda

Futebol feminino: por que não tem graça nenhuma ganhar de 29 a 0

São Paulo goleia Taboão da Serra no Campeonato Paulista feminino - Reprodução/Facebook
São Paulo goleia Taboão da Serra no Campeonato Paulista feminino Imagem: Reprodução/Facebook
Débora Miranda

Débora Miranda é jornalista e editora do UOL. Neste blog, conta histórias de mulheres no esporte, mostrando como a atividade física pode transformar vidas e o mundo.

Colunista do UOL

25/10/2020 04h00

Foi notícia na última semana a derrota do Taboão da Serra para o São Paulo, no Campeonato Paulista de Futebol Feminino. O placar: 29 a 0, sendo que 17 gols aconteceram apenas no primeiro tempo.

Tradicionalmente no futebol, um chocolate desses seria motivo de piada. Mas a verdade é que, em se tratando de futebol feminino, a derrota do Taboão da Serra não teve graça nenhuma. Pelo contrário. Mostrou a disparidade que existe entre os times e como há tantas equipes que ainda sobrevivem sem absolutamente nenhum apoio, incentivo ou infraestrutura.

No intervalo do jogo, a volante Nini, do Taboão, fez um desabafo que acabou viralizando nas redes sociais.

"Infelizmente a gente usa a camisa do CATS [Clube Atlético Taboão da Serra], mas em pouca coisa o clube nos ajuda. É mais a vontade da comissão técnica mesmo. As atletas estão sem ganhar nada, ninguém tem salário, ninguém tem condução, a gente não tem roupa de treino, não tem apoio nenhum do clube. A gente simplesmente usa o nome do clube para participar do Campeonato Paulista porque acredita que é uma oportunidade para as meninas mais novas", afirmou ela.

Nini ainda disse que a equipe não havia tido tempo de treinar. "Conseguimos um campo recentemente. Treinamos três dias antes do início do Campeonato Paulista, nesta semana tivemos mais dois dias de trabalho no campo. Então, é muito difícil jogar e posicionar taticamente contra um time do nível do São Paulo."

Apesar das dificuldades, ela destacou: "Mas em momento nenhum vamos desanimar". De fato, mesmo tomando 17 gols no primeiro tempo, o time voltou para a segunda etapa. Tomou mais 11 gols e fez um contra.

A situação lamentável do Taboão é a mesma de tantos clubes pelo Brasil. E a disposição de suas atletas também. Pelo sonho de jogar futebol profissionalmente, há meninas e mulheres se sacrificando em todos os cantos do país, treinando sem condições e sem salário, esperando um dia conseguir uma oportunidade melhor, um espaço para fazer sucesso, para ser reconhecida, para brilhar no mundo do esporte como Marta, Formiga e outras.

Há clubes que vivem, de fato, situações dramáticas e há também aqueles que agem de má-fé. No início da pandemia, por exemplo, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) distribui uma verba aos times para que pudessem ajudar as jogadoras durante esse período. Houve denúncias de equipes que não repassaram o valor às jogadoras. A diretoria da CBF precisou entrar em cena para intermediar essa negociação e garantir que as atletas recebessem pelo menos parte do que tinham direito.

Num país tão cheio de talentos como o nosso, não é só responsabilidade das federações se preocupar com as condições dos times e o alto nível de seus campeonatos. Mas é também um grande negócio. O futebol feminino tem crescido cada vez mais. Há empresas dispostas a patrociná-lo, as TVs têm aberto espaço para a transmissão dos jogos, e o público cresce. O descaso só leva ao retrocesso. É importante ter campeonatos equilibrados e de alto nível —e isso só acontecerá quando todos os times estiverem minimamente bem estruturados.

Após o jogo entre São Paulo e Taboão, a Federação Paulista divulgou uma nota oficial lamentando o ocorrido. "O resultado de São Paulo x Taboão da Serra é um duro episódio para o futebol feminino. A Federação Paulista de Futebol entende que, apesar de todos os avanços realizados nos últimos quatro anos na modalidade, algumas rotas precisam ser corrigidas. [...] A FPF reconhece que um controle mais rigoroso poderia evitar a exposição negativa das atletas e da comissão técnica, ocasionada por um inadmissível descaso do clube com sua equipe. Nos solidarizamos com todo o time pelo espírito esportivo e respeito, evidenciados pela sensata e emocionante entrevista da capitã Nini."

De acordo com a nota, a coordenadora de Futebol Feminino da FPF, Ana Lorena Marche, visitaria a equipe do Taboão da Serra em seu local de treinamento e cobraria medidas do clube.

É óbvio que, infelizmente, sempre haverá disparidades entre as equipes. No futebol masculino, que está aí há muito mais tempo, isso ainda existe. As equipes grandes continuarão sendo grandes. Corinthians e São Paulo, por exemplo, terão sempre mais facilidade para se estruturar e se destacar. Mas com um trabalho sério é possível garantir não apenas a real profissionalização de um esporte que é cada vez mais querido pelo público brasileiro, mas também jogos que sejam mais justos e disputados.

Porque, sejamos honestos, assistir a uma partida que termina em 29 a 0 não tem graça nenhuma.

PS - Depois da derrota do Taboão, foi criada uma vaquinha para ajudar a equipe feminina. A meta é R$ 10 mil, mas até o fechamento desta reportagem pouco mais de 10% do valor havia sido arrecadado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL