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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Livro explica como a "ideologia de gênero" é usada para projetos de poder

Manifestante segura a bandeira do Orgulho LGBTQIA+, na Hungria  - Bernadett Szabo/Reuters
Manifestante segura a bandeira do Orgulho LGBTQIA+, na Hungria Imagem: Bernadett Szabo/Reuters
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

17/09/2021 04h00

Na quinta-feira (16), participei do painel de lançamento do livro "Políticas Antigênero na América Latina" (disponível para download gratuito no site do Observatório de Sexualidade e Política, que assina a publicação junto da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS), um estudo bastante completo realizado a muitas mãos, que retraça a trajetória temporal antigênero na América Latina e mostra como a "ideologia de gênero" e outras fórmulas são apropriadas por políticos e líderes religiosos em seus governos e planos de poder.

A publicação define por exemplo que a "ideologia de gênero" tem sido propagada na América Latina como uma cesta vazia. "A linguagem antigênero é popular, versátil e do senso comum. Ela deixou a semântica religiosa para trás e se apropriou de argumentos da biologia, biomedicina, demografia, assim como da democracia, cidadania e do direito." E lembra que apesar de ter sido mais replicada a partir de 2013, o livro "Agenda de Gênero", da jornalista norte-americana Dale O'leary, publicado em 1997, já trazia essa ficção (termo meu), vinculada a um "marxismo, comunismo ou totalitarismo" —combinação que seria "particularmente poderosa nas eleições brasileiras de 2018, quando operou como uma cola simbólica para agrupar 'ideologia de gênero', pedofilia, Partido dos Trabalhadores e marxismo sob o mesmo guarda-chuva de acusações".

Na conversa sobre o livro, a antropóloga e professora Isabela Kalil falou sobre como os padrões encontrados nos discursos e ações antigênero nos diversos países observados pelo estudo chamou a atenção dos pesquisadores e ressaltou que as promessas de campanha de Bolsonaro com relação ao combate à "ideologia de gênero" e à "doutrinação marxista" foram se refinando durante seu governo, e se tornaram de fato políticas públicas, porém agora voltadas à "família" —uma noção de família heteronormativa não baseada em laços afetivos, mas biológicos.

O livro também argumenta que as políticas antigênero não se resumem a promover leis e políticas retrógradas em relação a gênero, sexualidade e aborto: "As trajetórias políticas recuperadas pelos estudos mostram que o investimento feito na preservação ou restauração de ordens sexuais e de gênero está no coração da erosão democrática e da guinada à direita que varrem a região" e traz análises detalhadas sobre as alianças entre neoconservadorismo, fundamentalismo evangélico e ultraconservadorismo católico.

Recomendo muito a leitura, sobretudo a quem se preocupa com os retrocessos e ameaças aos direitos humanos e tem se feito a importante (e atualmente bastante triste) pergunta: "Como chegamos até aqui?"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL