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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Marighella' e a urgência de escolhas mais corajosas no audiovisual

Seu Jorge como o guerrilheiro em "Marighella" - Divulgação/O2
Seu Jorge como o guerrilheiro em "Marighella" Imagem: Divulgação/O2
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

25/11/2021 04h00

Esses dias fui assistir ao filme "Marighella", que depois de muitos atravessamentos institucionais estreou nas salas de cinema. O filme, dirigido por Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge, faz sim um importante registro de uma história pouco contada ao grande público: a importância de Carlos Marighella, um homem baiano e preto, na luta contra a ditadura militar brasileira.

O filme é uma exposição dura e realista, com direção e atuação consistentes. Seu Jorge brilha demais e esta nem é a questão do que quero propor como reflexão aqui nesta coluna. O que eu gostaria de "dizer" é sobre algo que me bateu um pouco mais forte.

Eu senti falta da poesia no filme. Afinal, ser escritor, poeta, era o que ele era. Ou o que ele TAMBÉM era. Fico aqui pensando porque este tipo de subjetividade é sempre ou quase sempre ignorada nas representações dos corpos negros nas artes, sabe?

Eu gostaria demais que Marighella fosse retratado também em suas subjetividades, sobretudo nesta, artística, que certamente tem impacto mais que relevante na sensibilidade que sustenta coragens necessárias para a luta.

Ecoa em mim o texto da cineasta e roteirista Renata Martins, compartilhada em seu perfil no Instagram: "confesso que não consigo mais dar conta de filmes cuja o tom é dado pela violência como motor da resistência. Mas esse é um gatilho pessoal de quem trás na pele a mesma cor dos que foram açoitados, assassinados e tiveram todos os direitos, inclusive a humanidade sequestrada ao longo da história".

Contar uma história pressupõe fazer escolhas e são estas escolhas que fazem a diferença na imagem que vamos construir e registrar de nossos ídolos, representantes, o que quer que seja. "O filme demarca o ponto de vista de quem conta esse recorte da história, pois há um excesso de bravura e sacrifício dos personagens não negros da trama, sem contar que o lugar das mulheres negras na luta é quase inexistente. Elas continuam na base para sustentar emocionalmente os filhos, enquanto seus companheiros lutam por um mundo melhor, paradoxal, mas bem mais real do que a própria ficção", também escreveu Martins em sua análise. É sobre isso, sabe? E não! Não está tudo bem, não.

Terminei querendo conhecer mais sobre as subjetividades desse homem grandioso. A ditadura eu já conheço e é gatilho puro. Meu avô foi Marighella: um homem preto, periférico, artista, preso político e líder comunitário!

O filme lança sim algumas informações importantes para aqueles que ainda acreditam que a luta pela democracia é apenas branca! "O que é isso companheiro?" sempre foi incompleto pra mim - e pra muita gente.

Mas, penso também que é hora de escolhas mais corajosas, que além de fazerem as correções históricas necessárias sobre a participação dos corpos negros em todas as etapas de construção desse país, que nos permitam existir completamente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL