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Crianças: que mundo você cria pra elas a partir da leitura?

adolescente negra livros - Victoria Gnatiuk
adolescente negra livros Imagem: Victoria Gnatiuk
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

15/10/2020 04h00

Aproveitando que ainda estamos no "mês das crianças", quero aproveitar este espaço para falar de um assunto que A-MO e costumo indicar bastante em minhas redes sociais: literatura "infantil", embora eu ache que é muito indicada para adultos também. Claro que nem preciso dizer que é um tema que pode e deve extrapolar outubro, mas vamos aproveitar o gancho, certo? Certo!

Esta costuma ser uma coluna de moda e, sempre que pensamos em moda, pensamos em expressão. E, nas fotografias de moda, um registro de informações muito complexas de uma sociedade. Penso que a mesma coisa acontece com os livros que temos em casa. Eles colocam informações lá dentro - e também informam sobre a gente. Sobre a forma como estamos contando as histórias de fora pra dentro, como estamos nos formando e formando as pessoas que ali habitam. É um registro organizado, eternizado.

E, ainda relacionando moda e literatura infantil, vocês já pararam pra pensar nos ilustradores dos livros? O que são eles se não também estilistas, hair designers, figurinistas, várias coisas? Sempre pensei nisso ao folhear livros infantis, em como se escolhem as roupas das personagens, os penteados, os ambientes. Quais são as referências? O que será que a gente vai ler para as crianças a partir das imagens? Vamos construir, a partir da leitura, nossos momentos de interação e diálogo com nossos filhos, sobrinhos e crianças com quem convivemos.

Quando escolhemos um livro, estamos nos responsabilizando pelo repertório que construímos junto com as nossas crianças. Eu poderia fazer uma coluna por semana só disso. Mas hoje vou indicar cinco deles, que me apoiam bastante na educação da minha filha. Livros que são suportes para uma educação plural e diversa, para a construção da autoestima, da ideia de beleza, de moda e muitas outras coisas.

Vamos lá?

"O Mundo no Black Power de Tayó"

Kiusam de Oliveira

Ilustração: Taisa Borgens

O mundo no black power de Tayo - Divulgação - Divulgação
O mundo no black power de Tayo
Imagem: Divulgação

Kiusam é um dos principais nomes que refletem sobre negritude hoje por meio da literatura infantil. Um livro que fala muito sobre empoderamento da criança negra através do cabelo e também da relação entre mãe e filha. Traz referências de realeza associada a elementos da cultura africana, como os búzios e a coroa de palha da costa. Com este livro, rapidamente associo a imagem negra a um lugar de potência. Sem falar que a ilustração é linda e faz uma ponte importante e interessantíssima entre ancestralidade e afrofuturismo.

"As tranças de Bintou"

Sylviane Anna Diouf, Shane Evans, Omar Ribeiro Thomaz, Charles Cosac

As tranças de Bintou - divulgação - divulgação
As tranças de Bintou
Imagem: divulgação

Neste livro de aventura, enxergamos a cultura negra expressa principalmente através de tecidos e adornos de cabeça. Aborda um tema que eu considero importantíssimo, que é a questão do excesso de vaidade na infância associada ao cabelo. O objetivo da personagem principal é ter um cabelo trançado, e não liso. Olha o tamanho da desconstrução. Une personagens de diferentes gerações em torno das construções em torno do cabelo e da roupa. Tem a avó, as tias, a mãe. Muito, muito legal.

"O pequeno príncipe preto"

Rodrigo França

Ilustração: Juliana Barbosa Pereira

O pequeno príncipe preto - Divulgação - Divulgação
O pequeno príncipe preto
Imagem: Divulgação

O Rodrigo é um cara bem bacana, que, além de articulador cultural, vem trilhando um caminho incrível também na literatura. O livro é uma releitura do clássico "O Pequeno Príncipe", mas com as referências de elementos africanos e afro diaspóricos. A ilustração traz muitas "cabeças", o ori, tão importante para as culturas de matriz africana. Além de tudo isso, fala muito de afeto, de ubuntu. Imperdível.

"One Love"

Cedella Marley

Ilustração: Vanessa Brantley-Newton

One Love - Divulgação - Divulgação
One Love
Imagem: Divulgação

Baseado na música do Bob Marley, este livro é TU-DO! Diferente da maioria dos outros livros, ele é muito "urbano", sai um pouco de dentro de casa. Acontece nas ruas, em ambientes externos. Traz muita contemporaneidade nas roupas, especialmente de algo muito característico de negros em diáspora, que é a mistura dos elementos africanos com outras culturas. A camiseta com turbante, por exemplo. Quando li, queria transformar todas aquelas roupas nas roupas da minha filha. Uma graça.

"Meu crespo é de rainha"

bell hooks

Ilustração: Chris Raschka

Meu crespo é de rainha - Divulgação - Divulgação
Meu crespo é de rainha
Imagem: Divulgação

Este livro, para o qual, com muito orgulho, fui convidada a escrever a contra-capa, traz muita informação sobre a diversidade de crespos nas pessoas negras. É não apenas uma exaltação, mas uma valorização da diversidade entre nós. Um livro muito poético, com imagens poéticas, numa pegada aquarela. Bem bonito.

E você? Já leu estes livros? O que encontrou de moda neles? Já parou para observar se sua estante de livros é diversa como você diz que é a educação dos seus filhos e das crianças do seu entorno? Vamos ficar todes atentes a isso? Eu acho uma boa, heim? Fica a dica.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.