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Ana Paula Xongani

Visibilidade lésbica: a moda abraça ou subtrai um corpo sapatão?

A pesquisadora Ana Claudino, do perfil "Sapatão Amiga" - Reprodução
A pesquisadora Ana Claudino, do perfil "Sapatão Amiga" Imagem: Reprodução
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

27/08/2020 04h00

Ana Claudino, conhecida na internet como a criadora de conteúdo "Sapatão Amiga", é figura recorrente no meu feed, desde que os algoritmos entenderam que compartilhamos muitas coisas. Somos mulheres negras e criadoras de conteúdo, vários assuntos nos atravessam.

Vocês que me acompanham já sabem: eu adoro perguntar coisas que não se pergunta às pessoas, principalmente às mulheres negras, que costumam ser interpeladas sempre sobre os mesmos assuntos. Acompanhando o conteúdo dela, me chamaram atenção algumas postagens recentes sobre moda, corpo, beleza e autocuidado, mas tudo sob uma perspectiva lésbica, algo que nos torna diferente uma da outra.

Fiquei com algumas dúvidas na cabeça. Quais as referências de moda de uma sapatão? Como será que se constrói o discurso não verbal, através das roupas, de um corpo lésbico e gordo? Será que a moda abraça ou subtrai existências como a dela?

Ela começa me contando que foi não foi de imediato que ela se sentiu parte desse universo. "Acho que é a primeira vez que vou conversar 'publicamente' com alguém sobre isso, nesta entrevista. Intimamente, converso com amigas, mas nunca falei muito sobre isso porque achei que não era coisa para mim, sabe?"

"Sempre me pareceu um lugar para pessoas heterossexuais, magras e brancas. É o que a gente cresce vendo sobre moda. Por muito tempo, fui adepta de roupas escuras, como uma forma de passar despercebida mesmo, não vestia roupas que chamassem a atenção para mim. Durante muito tempo, a moda foi um aprisionamento."

Ana me conta que ela descobriu bem cedo que sua construção estética estava fora dos padrões. Mas, a história que ela resgatou na memória para trazer essa lembrança é de uma beleza ímpar.

"Eu era bem nova e minha mãe me colocou um vestido cor de rosa. Acho que foi minha primeira reação a um padrão", me conta sorrindo. "Eu não queria usar rosa de jeito algum. Minha avó, Dona Vera, que hoje entendo ter sido minha primeira e grande referência feminista, estava atenta a isso e é, sem dúvida, a responsável por, pelo menos na infância, eu ter tido a oportunidade de tranquilamente me vestir de mim mesma."

A Dona Vera levava a pequena Ana Claudino às sessões "masculinas" das lojas, mas dizia que era unissex, mostrando sensibilidade aguçada para discussões muito mais fortes e presentes hoje, de que roupa não tem, ou não deveria ter, gênero. "Ela me deixava escolher as roupas, não falava que isso é roupa de homem, aquilo é roupa de mulher, nada disso!" Uma sábia!

É de se imaginar que quando esse corpo saiu de casa para o mundo, as coisas não tenham sido tão fáceis assim. No início da juventude, Ana começou a ouvir comentários sobre sua forma de se vestir, sendo constantemente perguntada se queria "virar homem". Dona Vera também ouvia. "As pessoas diziam que ela estava transformando a neta dela numa sapatão, quando na verdade, ela apenas me respeitou, respeitou meu corpo e a forma que eu queria expressá-lo."

Além de manter o perfil "Sapatão Amiga" no YouTube e Instagram, e cursar mestrado no Programa de Políticas Públicas em Direitos Humanos na UFRJ, Ana Claudino é criadora do podcast Lesbosapiência, sobre saberes produzidos por mulheres lésbicas, e integra a Brejo Virtual, "coletiva de mulheres sapatonas plurais que promovem debates sáficos diversos". E todos os processos pelos quais passou e ainda passa como criadora destes conteúdos na internet tem impacto direto numa mudança radical em sua relação com a moda.

"Criei meu canal em 2017 e ele foi muito importante na construção da minha autoestima. Postando fotos e me vendo nos feeds e timelines, comecei a me enxergar, a me ver bonita. Esse processo aconteceu junto com minha produção de conteúdo nas redes. Comecei a querer sim montar uns looks mais ousados", conta.

"Percebi também a importância do 'espelho' na construção dessa autoestima e passei a seguir pessoas parecidas comigo. Me permiti e hoje adoro usar um amarelo, cores mais vibrantes, estampas, biscoitar mesmo. Ainda gosto de usar peças mais básicas, claro, mas me entendo pertencendo a muitas outras coisas também!"

Em total sintonia com isso que a minha xará compartilhou, costumo dizer que, na moda, a gente precisa ter um banco de imagens. Mas, um banco de imagens parecidas com a gente, para que a gente possa se identificar e ver beleza no espelho quando voltamos pra ele. Então eu quis saber quem são as pessoas que ela rola pra cima no Instagram e fala: "Nossa! Que maravilhosa!".

"Olha, a Jamine Miranda, a Preta Caminhão, é a minha referência de caminhoneira estilosa. A Yasmin Falcão, de customização de roupas, a Nataly Neri, de consumo consciente de roupas com os conteúdos sobre brechós. Tem também a Lidi Oliveira, que fala tanto sobre essa moda que a gente aprende com nossas mais velhas. E, claro, a Lizzo! Com a Lizzo veio o lance da aceitação do corpo, de ser gostosa e gorda, do jeito que eu sou!"

Como criadora de conteúdo que, assim como eu, dialoga com empresas, marcas e o universo da publicidade, não podia deixar de perguntar sobre o que ela gostaria que as marcas de moda e beleza comunicassem para mulheres lésbicas como ela.

"Mulheres mais reais, de corpos diferentes, sexualidades diferentes. Mas não só na comunicação. Precisa ser mais fácil e acessível encontrar roupas maravilhosas. Pra mulher gorda é tudo mais caro. Tem dia que eu quero ser o sol, me enfeitar. Mas, tem dia que quero colocar uma coisa básica, calça, tênis e sair. Falta referência e produtos acessíveis que contemplem todas estas possibilidades para corpos como o meu. Acho que da mesma forma que está todo mundo falando de "feed real", pra geral ficar atenta para as ilusões dessa era do close nas redes sociais, falta também a marca real. São poucas!"

Assino embaixo e fico aqui pensando que foi por isso que, junto com minha mãe, criei o ateliê que temos hoje, justamente por não encontrar em muitas araras por aí as roupas que eu queria vestir, que dissessem as coisas que eu queria dizer sobre minha personalidade. Acredito que tem melhorado, mas ainda falta. E falta porque a gente precisa ouvir vozes diferentes das nossas pra entender que moda não é sobre tendência. É sobre existência.

Ana, amiga, Sapatão Amiga, obrigada por tanto! Quero aqui reverenciar e agradecer também à sua avó, Dona Vera, por ensinar a liberdade do vestir pra você e para a gente!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.