Ana Canosa

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Opinião

'Fiz sexo pela primeira vez após cinco meses e fiquei com saudade do ex'

Martha, 29 anos, começou a última sessão do ano contando que finalmente havia feito sexo, depois de cinco meses de seca, quando terminou um namoro de mais de dois anos. Não estava fácil para ela, que adora transar. Aliás, falta de sexo era uma das suas queixas principais do relacionamento com o ex, que tinha outro ritmo, diferente do dela. Para ele bastava uma relação por final de semana. Vivia reclamando do desejo dela de querer transar todo dia.

Pesou para Martha, na decisão de se separar, o quanto ele minimizava as suas necessidades. Foram meses até que colocou um ponto final na relação. Sofreu, pois não era sobre falta de afeto, mas incompatibilidade na maneira de usufruir da vida, além da questão sexual. Começou a sair com algumas amigas solteiras, passou pela fase de achar que nunca ia mais transar novamente, até que no começo de dezembro, como um tipo de anunciação para o ano vindouro, engatou com um moço na balada, que aparentemente "prometia". "E foi bom?", perguntei interessada (a pergunta deveria ser... "E como foi?", mas eu nunca escondo interesse). Recebi um sonoro: "Foi péssimo".

Para começar, o rapaz não tinha preservativo, o que ela achou um absurdo maior que tudo. A justificativa dele foi que não imaginava que ia sair da balada com alguém para um sexo casual, o que fez ela pensar que não era um homem prevenido ou preparado, pior, era alguém que não tinha sexo como uma prioridade. Um perdedor, ela disse debochada, no que eu já estava ficando com dó do rapaz, pois conheço a paciente que tenho. "E você não tinha preservativo, como uma mulher empoderada, pronta para o que der e vier?", provoquei, as contradições sendo reveladas a fim de aceitar que o julgamento das falhas alheias fala mais sobre nós, do que sobre os alheios, não é verdade?

Tiveram que pedir o preservativo pelo app de entregas rápidas, sorte deles de viverem neste tempo em que isso é possível. Mas daí foi uma sucessão de frustrações. Martha reclamou que o rapaz tinha pênis pequeno e que nem era bom em outras práticas a fim de compensar o que a natureza não lhe concedeu (ela esculachou o pobre coitado, mas eu não vou reproduzir a sua fala, pois isso pode sensibilizar os meus leitores).

Disse que fingiu orgasmo pela primeira vez na vida, que era para acabar logo a relação, que o moço a convidou para tomarem uma ducha juntos, no que ela recusou, vai que ele se animava de fazer sexo no chuveiro. Saiu do banho enrolado na toalha dela, óbvio, pois estavam na casa dela, o que pareceu a Martha um acinte, sugerindo que pedissem uma pizza de calabresa, no que ela imaginou a salsicha dele fatiada na pizza, pois já estava mal-humorada. Automaticamente Martha passou a fazer comparações com o ex, arrependida por ter finalizado a relação.

Toda vez que alguém vai terminar uma relação amorosa e me conta que tem medo de se arrepender, eu digo que é muito provável de que, em alguma instância, isso aconteça. Sempre que a frustração ocorrer, no campo afetivo-sexual, a lembrança do ex será fatídica. Pode acontecer quando se tem o estranhamento de não saber paquerar em uma balada, ou de reconhecer que não se está mais tão jovem para adentrar a madrugada porque tanto o seu joelho, quanto a lombar e o seu fígado dão sinais de falência. Ou quando você marca encontro com alguém que conhece no app e percebe que a pessoa é chata e sem noção, ou quando leva o 14º ghosting.

O arrependimento ocorre também quando bate aquele sentimento de pena de si diante da busca por companhias para sair e viajar e descobrir que todo mundo está namorando, casado ou com filhos. Nessas e em outras situações o ex parece sempre maravilhoso e você esquece de todas as motivações que teve para o término. E sexo ruim, nossa, esse pode levar a um arrependimento forte mesmo, desses que fazem a gente correr e se jogar no colo de quem já sabe como te fazer gozar feliz.

No entanto, há que se ter cautela, pois o arrependimento nesses casos é passageiro, é aquele que nasce do desamparo, do instante em que a gente se dá conta da própria solitude. É a preguiça, ou o medo de lidar com os inevitáveis desconfortos da vida que faz muitos se manterem em relações insatisfatórias, que já não agregam nada a ninguém.

Digo a Martha que se aquiete e se acostume com esses pequenos arrependimentos, que não duram mais que dois dias, quando ela volta a se sentir mais forte para enfrentar a vida.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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