Ana Canosa

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Opinião

'Estou casada há 2 anos e preocupada porque já perdi o desejo pelo meu par'

Desejo é uma palavra derivada do Latim Desiderium, de Desiderare, "esperar por ter expectativa". Diz-se que não é possível desejar o que já se tem, pois o desejo nasce da falta. O que ocorre é que tudo é momentâneo, nada é satisfação absoluta, tudo é só apaziguamento. Nós desejamos das grandes as pequenas coisas.

Quando estou muito cansada, desejo muito a minha cama. Quando me deito, costumo dizer em voz alta: "Ai, que delícia!", no que ela parece ainda mais gostosa, pois acabo também reforçando a falta que ela me fez quando me peguei cansada e com sono durante a vigília. Um dos problemas do desejo sexual no casamento é justamente quando a gente para de celebrar o encontro, e por isso mesmo, ele deixa de ser ausência.

Luana tem 39 anos e a sua queixa é de baixa libido. Casada há dois anos, acha que é muito pouco tempo para ter interesse quase nulo pelo parceiro. Diz que tem pouco desejo espontâneo, aquele que brota do corpo no acúmulo de tensão sexual. Pergunto se outras pessoas, sejam as do convívio, na rua, sejam das mídias digitais, lhe chamam a atenção sexualmente, ela nega, ou pelo menos não se lembra. Não acha graça no sexo, é um arroz feijão sem muito tempero, em que ela 'até goza'. Quando eu falo que ter orgasmo não é suficiente para trazer satisfação sexual, aí está o exemplo.

Está preocupada com o destino da relação amorosa. O marido sente falta da mulher que no início do relacionamento era mais transante. Ele parece ressentido com as negativas dela, o que ora a sensibiliza, ora a enraivece: "Ele que procure outra então", me disse assim num ímpeto, as sílabas pulando da sua boca. "É o que você deseja?", perguntei eu, no que ela disse que talvez fosse mais fácil — uma terceirização do próprio desejo eu diria.

Pergunto se no início da relação ela sentia desejo pelo marido. Balança a cabeça afirmando, mas sem entusiasmo — parece que foi mais uma excitação pela novidade do que uma forte atração sexual. Ela não sente tanta química sexual, foi a narrativa de ser desejada e cortejada que a encantou.

O desejo sexual é derivado de um processo biopsicossocial. Inclui imagens e pensamentos dentro de um universo social e psicológico; influências psíquicas que determinam uma resposta metabólica e também as influências químicas e hormonais que são derivadas de sua ativação, em um sistema neuronal específico.

Luana gosta do marido, sente que são companheiros e têm uma boa vida juntos. Se ele não quisesse tanto fazer sexo, tudo seria mais fácil. O amor e o desejo sexual ativam áreas distintas do cérebro, embora estejam próximas. A área que é ativada pelo desejo, também acende em outras situações prazerosas, como comer. Já a ativação da área do amor envolve processos mais complexos, como o termo satisfação — quando nos sentimos recompensados ou valorizados por alguma coisa que fizemos.

Pergunto se ela tem uma memória erótica desse parceiro, como alguém sedutor, desejante, safado ou algo assim. Ela aperta os olhos, como se estivesse remexendo seu arquivo mental, em busca de imagens. Diz que não sabe ao certo. Questiono qual tipo de imagem sexual lhe vem em mente, quando busca excitação e ela responde: a do meu ex-namorado. Passou os outros 70% da sessão descrevendo as tórridas cenas de sexo que eles protagonizaram durante os 3 anos de relação. Mostrou a foto do dito cujo em uma rede social, revirou os olhos, só faltou babar (e já devia estar mais do que excitada, babando por outras vias). Luana não tem baixa libido coisa nenhuma, ela só não tem é desejo sexual pelo marido. A imagem do namorado, grudada na memória, ainda está insubstituível.

Boa parte das vezes, não vamos nos casar com as melhores parcerias sexuais — ou pode ser ao contrário — ter o melhor sexo, mas não a melhor parceria da convivência ou da intimidade emocional — mais uma das sacanagens da vida. Resta saber se Luana suportará essa falta. Pode ter sim uma vida sexual relativamente satisfatória com esse marido, mas de longe não será o que teve com o ex. Digo a ela que não consigo produzir desejo em ninguém — nem eu, nem terapeuta algum. Tampouco acredito que a imagem do marido migrará para a zona do desejo, algo que a meu ver acontece de modo mais espontâneo, quando uma nova parceria simplesmente assume o posto, borrando a anterior. Difícil ter falta, onde não se teve presença.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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