Ana Canosa

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Jovens estão vulneráveis ao HIV: por que isso acontece e como protegê-los?

Estamos na quarta década da existência da Aids (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), com uma realidade bastante diferente das que vimos nos anos iniciais no que se refere a tratamento, infecção e sobrevida. Mas a doença ainda é cheia de estigma e desconhecimento.

Pessoas que convivem com o HIV/Aids, mesmo aquelas que estão com carga viral indetectável após o tratamento com retrovirais, com vida normal e sem risco de transmissão sexual, sofrem por carregarem o rótulo de doença contagiosa. Quando pensamos em sexo com preservativo, ninguém tem obrigação de falar sobre HIV com suas parcerias. O preservativo e outras estratégias de prevenção oferecem autonomia, e é responsabilidade individual prevenir qualquer IST. Portanto, vale sempre discutir formas de prevenção.

Um dos fatores que inibem a conversa direta e aberta sobre o HIV e outras ISTs é que elas estão associadas a uma ideia de promiscuidade sexual. Além disso, a Aids ficou conhecida, na década de 80, como a peste gay, reforçando o preconceito. Pessoas vivendo com o HIV que percebem estereótipos têm duas a quatro vezes mais chances de adiar a busca pelo tratamento até que a doença já esteja agravada, diminuindo significativamente o sucesso dos retrovirais. Nesses casos, a Aids pode ser fatal. Segundo o Ministério da Saúde, homens heterossexuais têm 2,45 vezes mais chances de diagnóstico tardio, assim como usuários de drogas (2,65), além de que, quanto maior a idade, mais tardio é o diagnóstico.

Atualmente, não se fala mais "grupo de risco", e sim "população-chave" para definir quem está mais vulnerável ao HIV — sendo os homens gays e que fazem sexo com outros homens, pessoas trans, pessoas que usam álcool e outras drogas, pessoas privadas de liberdade e trabalhadores sexuais. Também são alvo de políticas públicas as populações chamadas de prioritárias, como pessoas negras, indígenas, em situação de rua, adolescentes e jovens. Das infecções recentes no Brasil, 42% foram em jovens de 15 a 24 anos, o que torna a educação sexual uma urgência. O início da vida sexual é repleto de anseios e dúvidas que, somados à insegurança e à impetuosidade característicos dessa fase da vida, os deixam ainda mais vulneráveis ao sexo desprotegido.

Para que uma pessoa possa adotar medidas de proteção combinada, solicitando do sistema de saúde e seus profissionais o acesso às estratégias disponíveis, é preciso estar tranquilo diante da própria identidade sexual e do comportamento. Se o sexo na adolescência já é tido como inoportuno e passível de críticas, como esse grupo se sentirá encorajado a buscar informações, proteção, testagem e tratamento? O mais curioso é que são os mesmos adultos que criticam os jovens que também não usam preservativo em suas relações sexuais. Aliás, esse é outro estigma: quando alguém contrai uma ISTs e é julgado por não ter usado camisinha. Infelizmente, há atitude discriminatória em relação ao comportamento sexual até por profissionais de saúde, que deveriam ser os primeiros a acolher e orientar sobre tratamento e prevenção.

O HIV é transmitido por sangue e fluidos sexuais, como o sêmen. Ele não sobrevive fora do organismo por mais que alguns segundos. Fora o uso de camisinha masculina ou feminina, gel lubrificante, redução de danos (estratégias para minimizar exposição no caso de uso de drogas), testagem frequente, há também disponível gratuitamente no sistema de saúde tanto a profilaxia pré-exposição, medicamentos usados para evitar que o vírus HIV se desenvolva quando uma pessoa é exposta a ele — voltada às populações-chave — e também a profilaxia pós-exposição, dada a qualquer pessoa que tenha se exposto ao vírus, em até 72 horas após uma relação sexual desprotegida.

Além da transmissão de mãe para filho, sexo anal e vaginal desprotegidos são as formas mais frequentes de contágio. O sexo oral não é 100% seguro, embora a saliva seja um lubrificante eficiente para evitar fissuras e algumas pesquisas apontem que uma exposição repetida ao HIV durante o sexo oral produz uma resposta imunitária específica na saliva.

Para as pessoas que estejam contaminadas com o HIV, a recomendação do Ministério da Saúde é iniciar o uso dos antirretrovirais no mesmo dia ou no máximo uma semana depois do teste positivo. Agora, em vez de dois comprimidos, o paciente poderá tomar só um, reduzindo efeitos adversos. Com um país com mais de 1 milhão de pessoas vivendo com HIV, o Brasil voltou a registrar boas notícias na luta contra a Aids.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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