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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Red' é um convite para falar sobre as emoções da puberdade com os jovens

RED  Crescer é uma fera - Divulgação
RED Crescer é uma fera Imagem: Divulgação
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

26/03/2022 04h00

"Red: Crescer é uma Fera", novo filme da Disney/Pixar é uma ótima oportunidade para pais, mães e cuidadores assistirem com seus filhos e filhas e discutirem as questões da puberdade e adolescência. A protagonista é a garota chinesa Mei Lee, de 13 anos, que se vê diante das dificuldades em lidar com as emoções nessa fase da vida.

Representadas simbolicamente pelo grande panda vermelho - que aparece a primeira vez quando ela menstrua - as intensas reações emocionais são despertadas pelas mudanças corporais, pelo apaixonamento, pela vontade de romper com os ideais familiares - em especial os da mãe - e experimentar prazeres típicos de quem está desbravando o mundo ao lado das melhores amigas.

Raiva, tristeza, alegria, medo, vergonha, culpa - a jovem Mei Lee é uma encantadora e típica púbere entrando na adolescência, que vai provocar as mudanças na vida familiar para acomodar as suas novas aspirações. O panda vermelho é uma tradição cultural chinesa e que na animação representa também as expectativas que culturas mais rígidas têm sobre as mulheres.

Já dizia o falecido Dr. Içami Tiba, que "a família é o segundo útero da vida da criança na qual ela vai se preparar para o seu segundo parto, a adolescência; se no ventre da mãe a mensagem dominante era ditada pelos cromossomos, no útero familiar a mensagem ditada será o como somos, através da qual os pais mostram como vivem, sentem e agem diante da vida. Esse segundo parto vai ser a adolescência, quando a criança nasce da família para a sociedade".

Buscando maior autonomia, o parto é feito pelos próprios adolescentes, e os familiares precisam ajudá-los a desbravar esse mundo, dando suporte. Não é mais gestar, mas gerir a passagem para o mundo adulto.

RED explora também que tipo de útero familiar tem a jovem Mei, e como se dá (ou não) a preparação para seu "segundo parto". Há uma linda e afetiva relação com os familiares e com os valores tradicionais, mas há também uma superproteção materna e o medo de que a moça saia, literalmente, dos certames do templo - o útero que a rodeia.

A resistência da mãe de Mei Lee diante do crescimento da filha revela comportamentos comuns a outras a famílias, sendo a negação a mais presente. O desejo de romper com a "ordem familiar" dos (as) filhos (as) parece que está sempre influenciada pelos amigos, nunca é um movimento próprio; aceitar o interesse afetivo-sexual deles pode ser para muitos um golpe duro demais. Parte da dificuldade de tratar do tema da sexualidade com púberes e adolescentes tem relação com a elaboração desse luto.

Enquanto nossos filhos (as) só amam a gente e desejam colo, aconchego, orientação, brinquedos e comida, pode ser cansativo, mas é bem mais simples. Já quando o desejo de afeto é canalizado para outras figuras, e o prazer está no contato com outros corpos, a situação muda bastante.

Embora o medo de que experimentem situações de violência, desprazer e outras vulnerabilidades a que estão sujeitos, como contrair uma IST e ter uma gravidez indesejada sejam legítimos e devam ser prevenidos a aproximação sexual deles nos coloca no lugar da "exclusão". Então, falar sobre prazer sexual, orgasmo, relação sexual, etc, seria assumir o interesse deles pelo assunto e admitir que ficará difícil participar integralmente desta intimidade e ter algum controle sobre ela.

Para compreender os filhos nesta etapa da vida é fundamental lembrar das próprias emoções vividas na adolescência. Em RED, não só a mãe, mas a avó e outras mulheres da família tem que lidar com seus próprios pandas-gigantes vermelhos.

Compreender como o papel de 'ser mulher' é passado de geração a geração e ressignificá-lo, é uma importante tarefa, pois felizmente muitas mudanças se deram em relação a autonomia feminina - também no campo da sexualidade. Além disso, é importante também buscar informação correta e orientação de como abrir uma comunicação saudável, preparando os dois lados para o nascimento que está por vir.

Alguns profissionais focam o seu trabalho na fase da puberdade e entrada na adolescência, como por exemplo a educadora Lena Vilela que tem inclusive uma live Minha filha menstruou, e agora? - além de muitos outros temas - sempre focando na orientação familiar. Outro conteúdo legal está no canal do Youtube da bióloga e educadora sexual Ivana Almeida - Hoje é dia D.

Cabe ressaltar ainda que "RED - Crescer é uma fera" - tem roteiro e direção de duas mulheres, Domee Shi e Júlia Cho, que revisitaram elas mesmas as suas histórias nessa fase da vida. É, tem coisas que só quem é mulher entende.