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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Assexualidade não é doença: como diferenciar orientação sexual e disfunção

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Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

06/11/2021 04h00

"Ace" é o termo curto para assexuais, pessoas que na maior parte de suas vidas não sentem atração sexual por outras, ou só em situações bastante especificas, como no caso dos demissexuais, quando ela ocorre somente quando há vínculo emocional estabelecido ou dos frayssexuais que são o oposto: a atração sexual só acontece enquanto o vínculo não se formar. Dentro do espectro Assexual há uma diversidade de orientações que fogem ao padrão de atração sexual conhecido, por isso mesmo que o termo ganha o plural: Assexualidades.

O Coletivo Abrace, grupo que se destina a discutir, informar e dar visibilidade das pessoas assexuais, lançou recentemente uma campanha com o apoio de instituições como o Conselho Regional de Psicologia de SP, a Comissão de diversidade sexual e de gênero da OAB São Paulo, entre outras, pelo fim da "cura Ace". A campanha visa chamar a atenção dos profissionais, especialmente os da área da saúde, para a despatologização da condição assexual.

Não é incomum que a assexualidade seja confundida com desejo sexual hipoativo, quando a pessoa sente uma queda na sua libido, transformando-a em "disfunção". Quando isso acontece, percebe-se uma tendência a orientação de tratamentos hormonais, desconsiderando-se que algumas pessoas simplesmente não têm interesse no sexo partilhado com alguém.

Atualmente, para pensar em qualquer tipo de tratamento, seja a psicoterapia, terapia sexual, fisioterapia pélvica ou tratamento medicamentoso (ou sua associação) levamos muito em conta o fator sofrimento e o prejuízo que uma condição sexual provoque na vida da pessoa ou dos que estão à sua volta.

A sutileza no entendimento das assexualidades é justamente porque muitas pessoas assexuais chegam ao consultório achando que estão com algum problema, mesmo que não sintam falta de uma libido direcionada a alguém. A pressão é mais externa, do que interna, como um sentido de inadequação diante de um mundo tão sexualizado. Já que está todo mundo falando tanto de sexo, gozando pelas orelhas, como assim não ter interesse na relação sexual com outra pessoa?

Sim, pessoas assexuais podem ter desejo sexual espontâneo preservado, mas que normalmente é sentido como acúmulo de tensão sexual, saciada através da masturbação. Podem inclusive se relacionar em compromisso com alguém e fazer sexo com a parceria, com resposta sexual preservada, ou seja, se excitarem, gozar etc. Mas nada que um bom bolo de chocolate não seja mais ou tão prazeroso quanto.

Sei que pode dar um nó na cabeça. Escutei uma mulher assexual, outro dia, que era casada, fazia sexo com o marido, quando a fisiologia sexual deles estava disponível, tinha orgasmo e estava se iniciando no cenário sadomasoquista. Percebe-se que o erotismo dela não tinha muita relação com a atividade sexual em si, mas com o jogo de poder e submissão que o BDSM proporcionava. A autodenominação nesses casos é muito importante: ela se considerava "Ace" e isso é fundamental.

Talvez, durante a sua vida, você passe por algumas fases menos desejantes de sexo, mas isso por si só não fará de você uma pessoa "Ace". Quando tratamos de orientação sexual, estamos falando daquele ímpeto erótico que nos move ao outro e não uma fase de pouco tesão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL