PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

App promete controlar o acesso a pornografia e combater o "vício". Adianta?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

26/06/2021 04h00

Disponível em Android e em breve também para IOs, chega ao Brasil o app Remojo, com o objetivo de apoiar homens com hábito e vício em pornografia. O brasileiro é reconhecidamente um povo que consome muito conteúdo sexual e na pandemia o país teve crescimento de consumo pornográfico virtual.

Criado na Inglaterra, em 2019, o app tem como objetivo conscientizar homens e promover uma vida sem pornografia. Presente em quase todos os países, é uma ferramenta que bloqueia conteúdos pornográficos no celular. "Nossa visão é construir um mundo onde estar livre da pornografia é tão comum e amplamente aceito como ser vegetariano, meditar, parar de fumar ou beber álcool", afirma Jack Jenkins, o criador do Remojo que foi, ele mesmo, um dependente da pornografia online.

É difícil estabelecer critérios para diagnóstico de vicio em pornografia online, pois a sintomatologia comportamental é bastante diversa e os estudos ainda são escassos Além disso não há consenso na conceituação do comportamento hipersexual, que atualmente é entendido como um transtorno de controle do impulso ou um vício comportamental.

Perda de controle do consumo da pornografia, prejuízo relacional, financeiro, estreitamento de interesses e negligência de outras áreas da vida como trabalho, família, amigos e lazer, avanço em temáticas sexuais ilegais, falência na tentativa de redução do uso, sentimento de vergonha, são alguns dos sintomas mais comuns.

Além disso, o consumo de pornografia online pode ser apenas uma modalidade e estar associado a outros comportamentos sexuais, que comporiam um quadro de transtorno hipersexual, - também conhecido por comportamento sexual compulsivo, dependência sexual, impulsividade sexual - incluindo masturbação excessiva, cibersexo, sexo por telefone, sexo com múltiplos parceiros, visitas a clubes de strip, etc.

Também, é importante compreender que o vício em pornografia pode estar sobreposto ao próprio vício na internet. Considerando a influência do triplo A na pornografia online acessibilidade (baixo custo), anonimato, alcance (facilidade de acesso e número infinito de cenários sexuais), é esperado aumento significativo no uso problemático da pornografia online ao longo dos anos, que pode ter efeitos adversos no desenvolvimento sexual e funcionamento sexual, especialmente entre a população jovem.

A masturbação relacionada ao consumo de pornografia online não necessariamente é um sinal de patologia; sabemos que é bastante frequente. No entanto, nem todos os usuários percebem a lacuna do tempo entre o consumo do conteúdo pornográfico e a primeira experiência sexual, a sua baixa motivação para engajamento sexual com parcerias, perda de ereção durante a relação sexual por dificuldade de manter o nível de excitação.

O problema da pornografia online, ao que parece, é a regulação do sistema de recompensa cerebral, pois o ativam em níveis muito altos e de maneira bastante rápida, gerando excitação e descarga de dopamina, quando é acompanhada da masturbação.

O app conta com uma inteligência artificial que detecta qualquer conteúdo pornô. Por exemplo, se você estiver no Twitter, e aparecer conteúdo pornô, o Remojo te avisa para você não acessar esse conteúdo. Para evitar a recaída diante da urgência do impulso, o usuário pode acionar a função de prevenir a desinstalação do app. Uma forma de aumentar a espera entre o impulso (a vontade de assistir a pornografia) e a ação. Tem um processo até conseguir desinstalar.

Além disso, o app oferece o monitoramento do desempenho do usuário para a construção de um hábito, inclusive mostrando o desempenho de outros usuários, uma forma de engajar a comunidade e produzir uma competição saudável em termos de desempenho. Outra funcionalidade é a promoção de mudança de mentalidade, com disponibilidade de conteúdo sobre sexualidade, sobre o que é o sexo, construção de hábitos saudáveis, desenvolvimento de masculinidade saudável sem objetificação dos corpos, por meio de podcast e artigos. O usuário que baixa o app paga um valor de 15 reais.

O Remojo é indicado para homens entre 16 e 35 anos, viciados em pornografia ou conscientes do que consomem, que desejam deixar a pornografia e vencer o vício. De fato, o perfil de pessoas que apresentam comportamento sexual problemático e uso de pornografia envolve ser homem, jovem, presença de religiosidade, uso frequente da Internet, estados de humor negativos e tendência ao tédio sexual e busca de novidades.

No entanto, as mulheres estão aumentando o consumo de pornografia online e algumas já demonstram sintomas de dependência. O Pornhub, inclusive, sustenta o dado de que as mulheres brasileiras, junto das Filipinas, são as que mais acessam o site e que em 2019 elas foram responsáveis por 39% dos acessos, número questionado por ter uma metodologia de pesquisa cheia de vieses.

Fica aqui a dica da necessidade de ampliar o acesso às mulheres, ou criar uma versão exclusivamente feminina, que também ajudaria a conhecermos melhor o perfil e os problemas específicos que esse tipo de dependência pode causar às mulheres.

Vale reforçar que o app é apenas uma ferramenta, que deve estar aliado a outras estratégias de autoconhecimento, como a psicoterapia individual e/ou em grupo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL