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Mulher Sem Vergonha

O mimimi da chamada "maternidade real"

Cena de um momento "fofinho" entre mãe e filho em Portugal, em 2019, quando viajar era possível - Arquivo Pessoal
Cena de um momento 'fofinho' entre mãe e filho em Portugal, em 2019, quando viajar era possível Imagem: Arquivo Pessoal
Bárbara Semerene

Bárbara Semerene

Bárbara Semerene é jornalista e psicanalista em formação. Atuou como editora, repórter e colaboradora na área de comportamento de revistas femininas, portais e jornais. Colaboradora do livro ?Sexo, afeto e era tecnológica?, da Editora UnB. Maternidade é seu tema favorito desde que se tornou mãe do Bernardo, 7 anos atrás. Seus textos podem ser acompanhados no Insta @barbara_semerene

Colaboração para o UOL

19/05/2020 04h00

Ando com preguiça do mimimi de mães que vestiram a camisa do que virou uma espécie de movimento batizado de "maternidade real", e nunca mais tiraram. Um movimento que encontrou seu ápice agora, durante a quarentena, em que as mães estão sendo obrigadas, "tadinhas", a passar mais tempo com seus filhos.

(Pronto, falei. Antes de atirarem a primeira pedra, deixa eu me explicar um minutinho.)

Sem dúvida, em um contexto em que tudo o que existia na literatura era a maternidade romantizada e o amor materno tido como parte da natureza de qualquer mulher, falar do lado B dela com todos os seus perrengues foi muito bem-vindo, necessário e libertador. Começando pela filósofa e historiadora francesa Elizabeth Badinter, com "O Mito do Amor Materno", publicado em 1985, que concluiu que o amor de mãe é um sentimento humano incerto, frágil e imperfeito, como outro qualquer. Depois, o tema foi explorado por outras autoras. E agora imensamente difundido por blogueiras, articulistas e no desabafo tragicômico de pessoas comuns em áudios de Whatsapp de mães cansadas e desesperadas com a função em meio ao caos dessa ruptura da rotina conhecida como "normal" até antes da pandemia de COVID-19.

Ainda é um tema pertinente e sempre um desabafo válido, principalmente para quem chega desavisada na cena da maternidade, cheia de expectativas positivas e "ilusões" românticas sobre a chegada de seu bebê. Especialmente para aquelas mães que passaram muito tempo tentando engravidar, fizeram tratamento, e finalmente conseguiram a dádiva. Rapidamente o encanto vira um pesadelo ao se depararem com a vida "rústica" e primitiva do início da maternidade, em que a mãe se torna quase um bicho, e seu corpo parece perder toda a sexualidade para se tornar uma fonte de alimento e de doação a um outro ser. Com restrição de sono, de seu direito de ir e vir, de viagens, de sexo, de diversão, e da sua bebida alcoólica predileta. Para as que se tornaram mães mais velhas, e passaram grande parte da vida cuidando só de si, de seus desejos, donas do seu nariz, uma vida hedonista e voltada ao trabalho (meu caso!), a mudança abrupta de paradigma é uma porrada na cara. Demora um tempo para se recuperar. Fato! Vivi isso na própria pele, não foi nada fácil. Mas, quando fui me familiarizando com a nova vida, aconteceu o mesmo que ocorre com qualquer ruptura de paradigma: começa a virar o novo normal. E a gente pode escolher entre curtir e se emocionar, ou passar o resto da vida reclamando, nostálgica do lifestyle que um dia teve e que "há de voltar", ao menos em momentos "roubados" quando "largamos" os filhos na casa dos avós, com a babá ou na escola.

Então, fico dividida entre dar gargalhadas/me identificar e achar um tanto infantil piadas com a tal da "maternidade real", que se tornaram uma espécie de "modinha". Confesso que a piada para mim tem perdido a graça à medida que se torna repetitiva. Já fez sentido, mas me parece que está na hora de virar o disco. A coisa foi distorcida ao ganhar estética própria e bem-humorada. Aos meus ouvidos, hoje, tem ganhado ares de "ladainha", um rosário de mães autorizadas a reclamarem constantemente de terem de abrir mão de seus prazeres e desejos - "socorro, não tenho mais tempo de acompanhar minha série preferida!", "não consigo trabalhar sem ser interrompida" - e falarem de seus filhos como um peso que precisam carregar, e o qual não vêem a hora de largar na porta da escola. É como se ter filhos também não fosse um desejo delas.

Esse discurso - que ganha espaço inserido em um pano de fundo narcisista, tão celebrado pela sociedade atual - para mim tem soado como autovitimização compartilhada por mães que se tornam cúmplices dessa empreitada da negação de seus desejos de serem mães. Um desejo que, como qualquer outro, implica em perdas que precisam ser bancadas. O que nos empodera como mulheres é assumir o desejo próprio de ter filhos e as perdas que bancar esse desejo implica. Palavra de mãe, que também se vira nos 30 e tem ataques de impaciência.

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